segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Flaviola e o Bando do Sol… lunar OU notícias do udigrudi.

Eu podia ter esquecido
Matado ou perdido
Já faz tanto tempo
Tanto que eu podia até ter esquecido
Já faz tanto tempo
Que eu reclamo pelas coisas que eu amo
Tanto que eu podia até ter esquecido
Ou nascido outra vez
Flaviola — O Tempo

Por: Alex Antunes

O disco de Flaviola e o Bando do Sol, gravado em 1975 e lançado no ano seguinte, é considerado, pelo local e época, como exemplar da psicodelia nordestina – o que o aproximaria da produção de outros artistas pernambucanos, como Lula Côrtes (que é o principal comparsa de Flaviola nessa gravação, e lançou praticamente ao mesmo tempo o clássico xamânico Paêbirú, com Zé Ramalho), Ave Sangria e Alceu Valença.
Mas cabem algumas distinções e relativizações interessantes que, eu creio, definem para ele um lugar especial no rock nacional. Costumamos considerar a experiência psicodélica – principalmente aquela mais hippie e brutalista, que desembocaria no rock pesado – uma experiência de entrega à “coisa em si”. Um transe liberador, direto, coletivista, yang, digamos.
Essa vertente (bastante nítida no rock da costa oeste dos EUA, e ligada a estéticas e éticas de despossuídos e andarilhos, com bebidas e drogas baratas, no que se conecta diretamente com a experiência beatnik) parece ser a mais central na psicodelia nordestina.
Essa pegada desinibida é perceptível em artistas locais como o Ave Sangria (às vezes chamado de os Stones do Recife) e Alceu; e nos Novos Baianos. No caso dos pernambucanos, se mistura muito bem ao baião e a uma verve profunda árabe e oriental – tema que recentemente foi explorado pela banda da moderna psicodelia paraibana, Cabruêra, no disco Nordeste Oculto (2013), com o falecido citarista e pesquisador Alberto Marsicano.
É um nordeste visionário, messiânico e meio apocalíptico, presente tanto em um Glauber Rocha quanto em um Lirinha do Cordel do Fogo Encantado, passando por Alceu fase hard e Zé Ramalho. Mas Recife, uma capital cultural de pensamento estético bastante sofisticado e matizado, reserva outras surpresas (que, de certa forma, se refletiriam na variedade do manguebeat dos anos 90, e na atual cena Beto).
Alguns anos ainda antes desse chamado Udigrudi recifense dos anos 70, houve o manifesto tropicalista pernambucano. Ele antecipava as teorizações dos próprios Caetano e Gil, pelo pessoal do LSE (Laboratório de Sons Estranhos), com uma extremamente interessante (e até hoje pouco reconhecida) figura, Jomard Muniz de Brito, à frente. Neste link dá para entender como Caetano e Gil têm uma dívida para com esses insights pernambucanos – além daqueles propiciados pelos inputs da vanguarda européia de Smetak e Koellreuter na Escola de Música da Bahia.
Flaviola em ação no show "7 Cantos do Norte"
É aí que entra em cena Flávio Lira, o Flaviola. Muito jovem e ousado, bonito, sexualmente ambíguo, “perfumado” (segundo ele mesmo), um dândi provocador, visto como perigoso para os bons costumes locais. Seu primeiro grupo já evocava no nome uma atitude protopunk, nada ligada ao “flower power”: Arame Farpado.
As façanha de Flaviola são relatada em algumas raras obras como o livro de Jose Teles, Do Frevo ao Manguebeat, e o TCC de graduação em História de Guilherme Oliveira, Pelo Vale de Cristal. “O Jornal da Cidade, em crítica a respeito das apresentações do (show coletivo) ‘7 Cantos do Norte’, produzido por Tiago Amorim no dia 25 de outubro de 1974 dentro da abandonada Igreja do Carmo, em Olinda, descrevia Flaviola como ‘um artista que mistura nostalgia e androginia’”, conta Teles.
Já Oliveira relata outro bombástico show coletivo anterior, O Parto da Música Livre, produzido pela Universidade Católica de Recife em junho de 1973: “Flaviola & Aurora Tropical foi o primeiro grupo da noite e chocou tanto quanto (a performance d)o parto da múmia de (Paulo) Bruscky. O Flávio Lyra, rapaz de vinte anos, e feições infantis que o faziam aparentar bem menos, incorporava um Jean Genet quando subia ao palco. Nesta noite sua apresentação (fixada em 20 minutos) foi inteiramente ocupada por um improviso, batizado de ‘Quizaro’. Simplesmente, a narração de um ato homossexual”. Acontece que o evento teria a presença de Luiz Gonzaga, e tudo virou um escândalo local, com a Policia Federal intimando Flaviola e o proibindo de cantar por uns meses, por seu ato de ‘pornofonia’ (termo cunhado em um título acusador do Jornal do Commercio).
Para Jomard, em artigo publicado no mesmo jornal, ainda em maio de 1972, Flaviola era um dos “três cavaleiros de fogo”(com os Tiagos Amorim e Araripe)  que incendiavam a cena: “Os  cavaleiros  de  fogo são  como  os  três  monges:  por  mais  que  se afastem  estão cada vez  mais  próximos, por mais  que  se  aproximem menos poderemos alcançá-los  com  o  suor  do  rosto,  da  mão,  da força.  Eles são os  pontos  de  partida  dos  mais  simples  e estranhos caminhos. Tentados  sempre  pelo  espírito  santo  em línguas  de  fogo os três  cavaleiros  fazem  da  arte  um prolongamento  do  corpo,  da alma,  da  água,  do  fogo,  da terra. Arte:  chama  que  perdura se consumindo,  que  as  consome perdurando.  Possuídos  pelas  línguas do  fogo  do  espírito  santo os  três  serenos  cavaleiros  do apocalipse descobrem  em  cores e sons  o  incrível  recomeço  do universo.  Tão fácil  quanto impossível nomeá-los:  TIAGO  AMORIM, TIAGO ARARIPE, FLÁVIO/PHLAVIUS/FLAVIOLA”.
O que mais sabemos da época foi o que ficou nas gravações lançadas, em que havia muitas colaborações cruzadas (aqui um apanhado de todos os discos relacionados à cena). E, sobre isso, um texto recente de Vitor Pessoa no blog Altnewspaper coloca uma questão interessante. “Me surge também a curiosidade da ausência de Flaviola em discos de contemporâneos como Lula Côrtes e Marconi Notaro. Talvez seja essa pouca interatividade que tenha influenciado fortemente (em) uma música com ares noturnos, solitários, introspectivos e enfumaçados, embora cheias de contribuições”, diz ele.
Flaviola e Lula Cortes no Recife
psicodélico dos anos 1970
Seu principal parceiro criativo, Lula Côrtes, e a esposa, a cineasta Kátia Mezel, faziam de sua casa Abrakadabra o hub da cena (que também trabalhava com artes plásticas, teatro, literatura, cinema). Lula e Kátia (responsável pela produção executiva e pelas ótimas artes de capa) também tocavam o selo Solar, fabricado pela gravadora local Rozenblit. Mas Flaviola já tendia a escolhas bastante pessoais. Nesse sentido, podemos associá-lo a uma psicodelia mais inglesa, urbana, aristocrático-decadentista, ligada à tradição europeia dos autores malditos.
Suas fontes eram inusitadas – como na ocasião em que, assistindo numa sessão de cinema de arte em Recife à Hora do Lobo de Bergman, descobriu um trecho do libreto da “Flauta Mágica” de Mozart que inspirou uma letra. Ou o “Hamlet” de Shakespeare, Garcia Lorca, Maikovski, ou ainda o I-Ching. Flávio (que depois faria carreira na música de teatro, no Rio de Janeiro), era um esteta, não “a coisa em si” hippie mas “sobre a coisa”, num registro mais estilizado. Se Flaviola toca um frevo, não é “o” frevo, mas um frevo de Flaviola.
Outro predileto dele era o folk do escocês Donovan – o que, misturado ao experimentalismo da época, me fez não errar muito ao sentir traços no álbum de um psych folk como o dos grupos Incredible Strings Band e Third Ear Band.
Esse apuro um tanto mais formal, um tanto menos espontâneo, mas sempre bastante seguro de si, me faz pensar que a literária Recife às vezes está para São Paulo como a celebratoria Salvador está para o Rio de Janeiro. A sagacidade do tropicalismo foi articular esses modos com uma habilidade pop.
É interessante que, contada assim, a cronologia normalmente suposta da história fica subvertida: quando Alceu Valença e Geraldo Azevedo chamam o maestro tropicalista Rogério Duprat para alguns arranjos de seu álbum de 1972, eles não estão sendo seguidores do tropicalismo, e precursores do boom local. Ao contrário, Alceu recrutaria, para sua melhor fase (1974-1976), os músicos do Ave Sangria que, por seu turno, ainda como Tamarineira Village (junto com o Phetus de Paulo Rafael, os Bambinos de Robertinho e as bandas de Flávio), já estavam bem antes disso bebendo nas fontes primárias do próprio tropicalismo. Alceu chegou depois.
Como foi dito, Flaviola e o Bando do Sol tem muito pessoal e contexto comum com os álbuns da turma: Satwa (de Lula e Laílson, 1973), Marconi Notaro no Sub Reino dos Metazoários (1973) e Paêbiru (1975). Particularmente com o disco de Notaro tem um trio de músicos em comum: Lula (tricórdio elétrico, dulcimer), Icinho (percussão) e Robertinho (viola, guitarra), além de Paulo Rafael e Zé da Flauta (que depois se tornariam dois dos principais colaboradores de Alceu na fase popular). Mas o disco tem esse elemento distintivo: a estratégia ainda mais dark e sempre mais introspectiva de Flaviola.
Começa com um bloco mais soturno, com o “Canto fúnebre” de Zé da Flauta, “Tempo”, “Noite” (musicando Shakespeare), “Desespero”, “Canção de outono” (musicando Lorca), a cantofalada “Do Amigo” e “Brilhante estrela”, de Robertinho de Recife (instrumental que, no vinil, abre o lado B, simetricamente ao “Canto Fúnebre”).
Zé da Flauta e Robertinho de Recife ensaiando pra o LP de Flaviola.
É interessante que o “Canto” remete ao ritual do Paêbirú – mas seus ruídos intrigantes têm de novo aquele viés punk: foram produzidos com o lixo restante de uma das grandes enchentes do rio Capibaribe, como aquela que destruiu quase toda a tiragem do disco de Lula e Zé Ramalho, quando inundou a gravadora e estúdio Rozenblit (o que viria a ser um dos componentes do mito do álbum).
Esse conjunto inicial de músicas de Flaviola faz pensar em relações estéticas com Secos & Molhados, com os cearenses Belchior e Ricardo Bezerra (parceiro de Fagner e autor de outra pérola esquecida, o disco Maraponga, de 1978, arranjado por Hermeto), e com o capixaba Sérgio Sampaio, em sua pegada mais cerebral.
Não tipicamente, as músicas mais animadas vêm no final do disco: “Como os bois” e “Olhas” (que são os poemas de Lula adaptados do I-Ching), a bela “Palavras” e as alegres “Balalaica” (Maiakovski), “Romance da lua lua” (do Romancero Gitano de Lorca, que faria sucesso na regravação de Amelinha) e “Asas”. Aí a conexão mais direta é com a tropicália mesmo: “Balalaica” lembra a gira de Gil & Jorge (que é de dois anos depois); “Asas” é um frevo-de-bloco elétrico e estilizado, à moda de Caetano.
“Olhas”, a minha predileta, que tem um arranjo meio noiado, stop-and-go, e remete de novo aos malditos urbanos, a Macalé (particularmente o de Let’s Play That, álbum com Naná Vasconcelos gravado em 1983 mas só lançado onze anos depois), ou a Walter Franco. Com Walter, Flaviola tem em comum o uso de versos curtos e recorrentes, explorando a repetição mântrica.
E eis que, 40 anos depois, Flaviola ressurge, primeiro no festival Abril Pro Rock do ano passado (acompanhado de seus sucessores da atual cena Beto de Pernambuco, Juvenil Silva, Juliano Holanda e Gilú Amaral), e agora, na última quinzena, com shows na Audio Rebel do Rio de Janeiro, e no Sesc Belenzinho, em São Paulo.
Com uma banda de ótimos músicos da cena carioca (Tarantílio Costa nos teclados, Aprígio Bertholdo na guitarra, André Lima no baixo, Cacá Franklin na percussão – e a reserva psicodélica de Zé da Flauta, mais a participação em SP de Lirinha Morini na viola caipira), o repertório sobrevive bem a uma revisão, digamos, com uma pegada mais prog-mpb. O show trouxe ainda algumas composições posteriores ao repertório do disco, mas com a mesma perspectiva poética, como uma linda adaptação de um trecho da “Marília de Dirceu”, do inconfidente Tomás Antonio Gonzaga.
A voz de Flaviola está menos jovial, claro, mas continua com um timbre e um senso de divisão muito interessantes. Tem todo um repertório inédito. E seus jovens seguidores pernambucanos – os citados e mais o eletrônico D Mingus – avisam que se animariam com a possibilidade de juntar essas duas pontas da contracultura nacional e nordestina em algum projeto.
De volta à época da gravação: em 1975, Alceu Valença foi convidado a participar do festival Abertura, da Rede Globo, e montou sua banda de “jagunços hippies” com Zé da Flauta, Zé Ramalho, Lula Côrtes (com o inesquecível tricórdio), Dicinho e os Ave Sangria Agrício Nova, Ivinho (outro grande guitarrista, falecido recentemente), Israel Semente e Paulo Rafael. Tocaram a memorável “Vou Danado Pra Catende”, cujo refrão é um poema de Ascenso Ferreira, que acabou ganhando o prêmio de “pesquisa” (porque era difícil de classificar). Ainda lembro do impacto enorme que apresentação teve sobre mim, ainda adolescente, na televisão. Para o resto do país, essa (e o posterior sucesso de Zé Ramalho, três anos depois) seria a única parte visível do Udigrudi nordestino.
Flaviola permaneceu um personagem lateral, como parceiro de Zé (”Décimas de um Cantador”, “Martelo dos 30 Anos”, “Quasar do Sertão”) e compositor de outras adaptações musicais, de James Joyce e Augusto dos Anjos. Também foi diretor de shows de Elza Soares (Minha Vingança Sará Maligrina), Paula Morelembaum (Marco Zero) e até de Silvinho Blau-Blau. Além da banda Braz, que teve seu único disco produzido em 1989, no Rio, por Robertinho.
Tudo isso sob o nome de Flávio de Lira, ou Lyra - o que fazia com que as pessoas em geral não o associassem ao álbum que cada vez mais é redescoberto. Já Jomard Muniz de Britto teve problemas com a ditadura, por ser, ainda por cima, colaborador de Paulo Freire; dedicou-se à poesia, ao ensaio e lançou alguns discos obscuros nessas quatro décadas, e também tem sido saudado pela ousadia e ineditismo de suas filmagens e performances experimentais daquela época. É outro cuja estatura real é ainda desconhecida; tal como Flaviola, merece uma revisão.
Como sempre, na gringa, parece haver gente mais atenta: Flaviola e o Bando do Sol teve lançamentos internacionais em 2005 (por um selo pirata sul-coreano) e em 2011 (pelo inglês Mr. Bongo, que relançou todo o catálogo da Solar). No Brasil permanece só naquela pequena tiragem local de 1976.


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