quinta-feira, 13 de novembro de 2025

Monstromorgue lança “Telluric Path", grindcore Kafkiano em 400 BPM


Por Luci Fernandes



A banda alagoana de grindcore Monstromorgue, de Delmiro Gouveia, acaba de lançar seu mais novo trabalho, intitulado “Telluric Path”. O álbum chega às plataformas digitais nesta sexta-feira (14) e também será disponibilizado em CD pela gravadora independente Quilombo Discos. Para os colecionadores de vinil, uma edição está prevista para 2026.

“Telluric Path” aborda temas políticos e existenciais numa perspectiva Kafkiana ambientados em um pós-mundo distópico habitado por baratas, refletindo sobre nossa realidade absurda, opressora e labiríntica. As ilustrações e o design gráfico do álbum ficaram a cargo do artista plástico sergipano Thiago Neumann. 

No decorrer do processo de produção do disco, o Monstromorgue também participou das coletâneas "União, Barulho e Underground Vol. 1" lançada pelo selo mineiro Brutalize Records e da coletânea "Grind Crust Punk Massacre" lançada pelo selo paulista Noisewar Records, reforçando sua presença na cena underground nacional.

Desde 2000, o Monstromorgue atua no cenário grindcore, destacando-se por seu som autêntico, ultra rápido e barulhento. A banda possui uma vasta discografia, com massiva partipação em coletâneas e splits lançados no Brasil e também em outros países. Atualmente a banda participou de alguns festivais de música independente em Recife (PE), Maceió (AL), Aracaju (SE) e Ribeira do Pombal (BA), dividindo o palco com bandas como Arquivo Morto, Mente Podre, Misantropia, Sublevação, Olho Por Olho, PH, Töhil, Ataque Cardíaco e Prefatory, consolidando sua relevância no gênero.

Com “Telluric Path”, o Monstromorgue reafirma sua essência: Música política, extrema e subterrânea. A captação de áudio e a mixagem foram feitas no Stench Room Distudio, em Delmiro Gouveia e a masterização foi feita por Dennis Israel no Clintworks Studio em Hamburgo, Alemanha. 


"We are a rotten apple on a cockroach's back..."


Ouça abaixo “Telluric Path” do Monstromorgue:

▶︎ Telluric Path | Monstromorgue | Quilombo Discos






sexta-feira, 2 de fevereiro de 2024

OS 30 MELHORES DISCOS NACIONAIS DE 2023


A Revista Ruptura tarda, mas não falha. Mesmo com um considerável atraso, finalmente saiu nossa despretensiosa listinha com as 30 melhores produções musicais do ano de 2023 na sequelada opinião de Michel Carvalho, editor desse duvidoso webzine.

Ao desenvolver essa modesta lista de "melhores" discos do ano, mais uma vez tentei mesclar alguns artistas ligados ao mainstream com produções mais undergrounds na tentativa de tentar introduzir determinadas obras, subjetividades, cenas, movimentos e territorialidades nesse amontoado de listas que se repetem aos montes com discretas alterações aqui e ali. Espero que os algoritmos de busca nos ajudem.

Obviamente não ouvi tudo que saiu esse ano, seria humanamente impossível. Portanto, essa lista é baseada no que tive acesso e consegui ouvir na correria do decorrer do ano e reflete apenas meu tosco gosto pessoal. Os discos estão dispostos na lista de forma aleatória.  

Veja as minhas escolhas e conte pra mim qual foi o seu favorito e quem ficou de fora!

#30 BIXIGA 70 - VAPOR


Após algumas mudanças na formação, o grupo paulista de música afro-brasileira instrumental, Bixiga 70, está de volta com um novo disco, Vapor. O álbum conta com sete temas instigantes que marcam o início de uma nova fase na trajetória da banda que agora conta com a presença dos músicos Daniel Verano (trompete), Douglas Antunes (trombone), Daniel Nogueira (saxofone tenor), Cuca Ferreira (saxofone barítono), Cristiano Scabello (guitarra), Pedro Regada (teclados), Marcelo Dworecki (baixo), Valentina Facury (percussão) e Amanda Teles (percussão). O groove característico do grupo continua presente, mas agora temperado pela nova formação com destaque para o tecladista Pedro Regada, responsável por inserir ritmos alucinógenos à afro brasilidade do Bixiga 70. O disco conta com as participações especiais de Vitor Cabral e Simone Sou. Mixagem de Gustavo Lenza no Estúdio La Nave e masterização de Fernando Sanches no Estúdio El Rocha. Lançamento via o selo alemão Glitterhouse Records em Vinil e CD. Destaque para as faixas Marginal Elevado Radical e Mar Virado.

#29 APHORISM - ENTRANHAS DO SUBSOLO


O grupo baiano Aphorism voltou três anos após seu último lançamento com o disco Entranhas do Subsolo, uma pedrada death/grind com oito faixas em pouco mais de quinze minutos. Apesar de curto, o álbum é bastante intenso, seja pela ferocidade das músicas quanto pelo desalento que as letras transmitem - "...A desmemória é voluntária e cretina...". As faixas mesclam momentos mais explosivos com passagens mais vagarosas recheadas de riffs de guitarra cabulosíssimos! A gravação muito boa ficou a cargo de Dill Pereira no Ruído Rosa, a mixagem e masterização feitas por Will Killingsworth no Dead Air Studios. A ilustração da capa ficou a cargo de Ars Moriendee. O álbum foi lançado em CD numa parceria entre os selos Tropical Death, Cospe Fogo Gravações, Cianeto Discos, Excarnation Records, Two Beers or not Two Beers Records e Vertigem Discos.

#28 G. PAIM - SEM CALOR NEM COR



Gustavo Paim é um músico e poeta envolvido com o punk e a música eletrônica. Nascido em Belo Horizonte e residente em Curitiba também é membro co-fundador do selo Meia-Vida, responsável pelo lançamento de seu novo disco, Sem Calor Nem Cor. G. Paim, como assina seu projeto solo, é um registro intermitente de tentativas de experimentação condensadas sob o território da música eletrônica de pista e do pós-punk. O álbum apresenta oito faixas, sendo uma instrumental. Todas composições, letras e instrumentos foram elaboradas e gravados por Gustavo, com exceção da bateria eletrônica na faixa "Cidade Fantasma", gravada por Roompunx. A mixagem ficou a cargo de Gil Mello, a masterização por Michael Wilsegue, a produção ficou a cargo do próprio Gustavo e de Akadinho. A capa foi desenvolvida por Leonardo Faria e a foto da capa por Aline Vieira.

#27 MATHEUS CORINGA, GALF & NOSHUGAH - REPULSA


Os soteropolitanos Matheus Coringa e Galf AC são dois dos MC ‘s mais prolíficos do cenário hip hop atual, pra fechar a formação de quadrilha foi convidado o promissor produtor Noshugah que assina todos os beats da mixtape Repulsa. Os três elementos soltaram juntos esse pequeno grande trabalho composto de uma intro e seis faixas de boom bap sujo e underground. Em tempos onde o discurso e o modo de produção é determinado por algoritmos, mixtapes como Repulsa demonstram a aversão necessária a egotrip vazia que gera engajamento nas plataformas de streaming. A mixagem e a masterização ficaram por conta de Matheus Antunes. A capa simplesmente animal foi produzida pelo jovem artista Pedro "PDVRX". Lançamento via Sujoground, Sheila Records e Cremenow Studio. Brabíssimo!

#26 CRYPTA - SHADES OF SORROW


Shades of Sorrow é o segundo e mais novo álbum álbum de estúdio da banda brasileira de death metal feminina, Crypta. O disco foi gravado ao longo de fevereiro de 2023 no Family Mob Studio em São Paulo. Posteriormente, foi mixado por Daniel Bergstrand no 33 Studios em Estocolmo, Suécia e masterizado por Jens Bogren no Fascination Street Studios em Örebro, também na Suécia. Lançado pela gravadora austríaca Napalm Records, este álbum marca a estreia da guitarrista Jéssica di Falchi, que substituiu Sonia "Anubis" Nusselder. Crypta foi formada em 2019 após a saída de Fernanda Lira e Luana Dametto da banda Nervosa, de lá pra cá, vem conquistando a cena do death metal mundial fazendo shows em festivais relevantes por todo o globo. O novo álbum é longo, tendo quase uma hora de duração dividida em treze faixas de um death metal menos grotesco que aposta na construção de passagens mais melodiosas (muita influencia de Iron Maiden, principalmente nos solos de guitarra) do jeito que os gringos gostam. Destaque pra performance de todas as minas no disco, tudo executado com maestria, sobretudo o vocal da Fernanda que tá bem mais sinistro que no disco anterior. Belíssima arte da capa por Raul Campos.

#25 COZME! - EXU LADAINHA


Exu Ladainha é o primeiro álbum do projeto de música experimental alagoano, Cozme! Composto por uma única faixa de aproximadamente vinte minutos de duração, o disco nos convida a uma gira astral embalada por ruídos e sons emitidos por um instrumento de sopro fabricado pelo idealizador do projeto, Wellington Amâncio. O mesmo afirma que o projeto da Xarunga (nome que batiza o instrumento utilizado na gravação) foi concebido mediunicamente. Uma espécie de pífano modificado artesanalmente. Para além da prática com o instrumento de sopro citado, Exu Ladainha incorpora a improvisação, usos criativos de gravações de campo, samples coletados por um Tascam Dr-100 e também o uso de sintetizadores. Lançamento via Quilombo Discos e Black Mess Records.

#24 FBC - O AMOR, O PERDÃO E A TECNOLOGIA IRÃO NOS LEVAR PARA OUTRO PLANETA


Após o grande sucesso em torno do disco Baile (2021) - fruto de uma bem sucedida colaboração com o produtor VHOOR - FBC solta trampo novo na pista: O Amor, O Perdão e a Tecnologia Irão Nos Levar Para Outro Planeta. Acompanhado pela dupla de produtores formada por Pedro Senna e Ugo Ludovico, além das vozes de Aline Magalhães, Sàvio Faschét, Iolanda Souza, Sarah Reis, Fernanda Valadares, FBC passeia pelos anos 1970, 1980 e 1990 fazendo uma combinação de elementos que vai dos primórdios do funk ao uso de temas sintéticos que desembocam na house music. Um mix de passado e presente no decorrer das quinze faixas totalmente diferentes de tudo que o rapper mineiro fez anteriormente, aliás, isso é meio que uma característica em sua carreira. Participações especiais de Don L, Abbot e niLL. 

#23 FOSSILIZATION - LEPROUS DAYLIGHT


Fossilization é uma banda de death metal formada em São Paulo no início de 2020, fase inicial da pandemia de covid. Depois do lançamento do ep He Whose Name Was Long Forgotten em 2021 e do split com a banda norte americana Ritual Necromancy em 2022, finalmente veio seu primeiro álbum, Leprous Daylight. O disco apresenta oito faixas totalmente death/doom metal areia de cemitério, fundindo passagens mais intensas com andamentos mais lentos e fúnebres. O duo paulista têm chamado bastante atenção no exterior, fazendo bastante shows e participando de diversos festivais. Gravado no Hellspass Studio com mixagem e masterização por conta de Otso Ukkonen. Leprous Daylight saiu nos formatos vinil, CD e tape via o selo italiano Everlasting Spew Records. Capa por Rio Oka. Altamente recomendado para quem curte Incantation. 

#22 DJ K - PÂNICO NO SUBMUNDO



Estourado desde que o site americano Pitchfork, maior referência de avaliação de álbuns na música pop contemporânea, cujas resenhas e notas rigorosas são esperadas e temidas, publicou uma elogiosa crítica a respeito do novo álbum do produtor paulista DJ K, de 22 anos, Pânico no Submundo. DJ K tinha apenas 17 anos quando começou a produzir funk, passando um ano inteiro estudando meticulosamente os tutoriais online do FL Studio e produzindo suas próprias faixas em um ritmo prolífico. Quando finalmente compartilhou sua produção online, ele imediatamente se tornou um componente principal do Baile do Helipa, festa de rua de Heliópolis, a maior favela de São Paulo, com uma população de mais de 100 mil habitantes. Atualmente lidera o coletivo musical Bruxaria Sound, que reúne 17 artistas, entre MCs, produtores e DJs. A Bruxaria evoca um funk de atmosfera sinistra e misteriosa, incrementando-o com uma musicalidade barulhenta que ultrapassa os limites do som e do corpo - não surpreendentemente, também se tornou conhecido como "sangra tímpano" ou "destruidor de fones de ouvido". Pânico no Submundo foi lançado em tape via o selo africano Nyege Nyege Tapes.

#21 TEST - DISCO NORMAL


Disco Normal é o quarto álbum do duo paulista, Test. Conhecida pelas suas apresentações em espaços públicos e por sua autenticidade, a banda jogou na praça um dos melhores discos de grindcore do ano na minha lombrada opinião. Gravado em ambientes incomuns pra captação de áudio como: ruas, embaixo de viaduto, dentro de vagão de trem abandonado, dialogando com as dinâmicas dos espaços públicos urbanos - tudo isso com o uso microfones e aparelhagens de gravação experimentais. Pra quem curte viajar em engenharia de som, é um prato cheio. Particularmente eu curto muito quando as bandas criam métodos de gravação que geram resultados diferentes do que a indústria musical e os algoritmos das plataformas de streaming demandam, grindcore é sobre isso também. O álbum aglomera dose faixas animais com uma abordagem mais experimental em relação aos discos anteriores. Participações especiais de Marian Sarine, Iggor Cavalera, Marcelo Angu, Phil Bersário, Aron Carriel, Jonnata Doll, Felipe Flip, Thais Blanco, Dylan Walker Orquestra Geek, skatistas e de um cachorro. Letras por diversos figuras como: Fernando Catatau, Vitor Brauer, Kiko Dinucci, Quique Brown e mais uma galera. Masterização feita por James Plotkin. A arte da capa ficou a cargo de Rael Brian e layout por Rodrigo Chã. Lançamento em vinil via All Music Matters, 255 Records e Corte Edições Limitadas. 

#20 NORTRAGAMUS - INEVITÁVEL


Em tempos de ascensão de subgêneros como o trap, grime e o drill, é interessante colocarmos os holofotes e darmos o devido reconhecimento para artistas que estão nadando contra a corrente. Foi lançado em 2023 o segundo álbum do projeto Nortragamus, Inevitável.  Nortragamus é um artista-animação que foi desenvolvido por Luiz Kuhner (diretor de arte); Wellington abreu (animação), André Bandeira (animação) e Pedro Alvarez (Ilustração). Além de estética visual, a sonoridade da voz possui uma distorção no pitching vocal, tornando-a mais aguda, lembrando sutilmente a estética de voz do Quasimoto, artista-animação norte americano famoso no rap. O álbum de pouco mais de 30 minutos possui onze faixas boom bap, com instrumentais de muito bom gosto, produzidos pelo carioca Mãolee, um dos fundadores da Tudubom Records. Destaque para os samples presentes no álbum, para os jogos de palavras, sacadas geniais, flows e métricas de bastante criatividade nas batidas. Scarp, também membro da Tudubom, somou participando em duas faixas e elevou ainda mais a musicalidade. Participações especiais de Daniel Shadow e Sain. O DJ LN foi o responsável pela mixagem e masterizaçãoLançamento via a consagrada banca carioca Tudubom.

#19 OS TINCOÃS - CANTO CORAL AFROBRASILEIRO


Gravado pouco antes da viagem do grupo a Angola, onde dois dos três integrantes, Mateus e Dadinho (compositores de todas as canções do álbum), passaram a viver, Canto Coral Afrobrasileiro ficou guardado por décadas. Remasterizado por Tadeu Mascarenhas, o álbum foi lançado em abril de 2023 pela Senzala Cultural, com patrocínio da Natura Musical e do Governo do Estado da Bahia, através do FazculturaEm sua quarta formação, com Mateus AleluiaBadu e Dadinho, o trio vocal baiano Os Tincoãs canta o sincretismo religioso através de orikis iorubanos e salmos, acompanhados do Coral dos Correios e Telégrafos do Rio de Janeiro. Produzido por Adelzon Gonçalves, com arranjos vocais do maestro Leonardo Bruno e regência de Armando Prazeres, o disco ainda conta com participação do lendário percussionista Pedro SorongoToques e temas do candomblé são interpretados pelos baianos da cidade de Cachoeira, que, com o acompanhamento do coral, aproximam-se da música gospel negra norte-americana, em uma joia da sonoridade afrodiaspórica. As faixas saúdam orixás como Iansã, Iemanjá e Oxum, e também a Jesus Cristo. Atabaques, agogôs, ganzás, violão e vozes criam um clima onírico e litúrgico, no qual os três integrantes d’Os Tincoãs soam como um único elemento.

#18 LASSO - ORDEM IMAGINADA


Pelo terceiro ano consecutivo, o grupo baiano Lasso oferece ao mundo um novo EP no momento em que a primavera chega no hemisfério norte e o outono se instala no sul do equador. Espelhando o clima imprevisível desta época do ano, as sete músicas presentes em Ordem Imaginada transitam entre explosões cruas de energia maníaca e pensamentos tensos, invocando os ciclos de ansiedade e depressão que dominam tantos de nós hoje em dia. Faixas como “Respice Finem” e “Raiva Derramada Na Estrada” soam como a incontrolável onda de adrenalina que acompanha um ataque de pânico, e embora os riffs intermediários de “Tecido Social” e “Nó” possam abrir o poço, é apenas para nos engolir inteiros. O ilustrador Carlos Casotti também fornece sua melhor arte de capa da banda, uma visualização misteriosa da enigmática abordagem do Lasso ao punk hardcore. Gravado e produzido pela própria banda no Ruído Rosa, com assistência de gravação por Dill Pereira. Mixado por Jonah Falco na Inland Waterways, masterizado por Will Killingsworth no Dead Air. Lançamento fruto de parceria entre os selos Sorry State Records (US) e Static Shock Records (UK).

#17 CAVALERA - MORBID VISIONS


Os irmãos Max e Iggor Cavalera decidiram revisitar cada uma das canções que integram o disco Morbid Visions - primeiro álbum de estúdio da banda mineira Sepultura, lançado em 1986 via Cogumelo Records - porém, agora sob a alcunha do projeto Cavalera. É como um diálogo da dupla com o próprio passado, introduzindo novas referências e elementos. Com boa produção e qualidade técnica incontestável, o registro apresenta oito regravações e uma faixa inédita (Burn the dead). Quando voltamos os ouvidos para os registros produzidos pelo Sepultura em início de carreira, ficam evidentes as limitações técnicas de Morbid Visions frente ao material apresentado posteriormente. Produzido em um intervalo de poucos dias, com o grupo testando os próprios instrumentos em estúdio e com o domínio parcial da língua inglesa, a versão original soa muito mais como um esboço do que uma obra propriamente dita. A nova versão foi regravada no Platinum Underground, em Phoenix, no Arizona (EUA). Os próprios Max e Iggor produziram as regravações. Igor Amadeus Cavalera tocou baixo e Daniel Gonzales (Possessed) pegou na guitarra solo. O berlinense Eliran Kantor, que já fez capas pra bandas como o Testament, reimaginou a arte gráfica. Lançamento via Nuclear Blast Records. Merecida releitura desse clássico do metal mundial.

#16 LUPE DE LUPE - UM TIJOLO COM SEU NOME


Um Tijolo Com Seu Nome é o sexto álbum de estúdio da banda mineira Lupe de Lupe. O disco propõe 24 faixas de 1 minuto a 2 minutos contando pequenos contos. Cada canção é uma história, um personagem da vida real ou imaginária. Concebido com o intuito de ser ouvido em qualquer ordem, a banda procurou inspiração tanto em gêneros com músicas super curtas, como nos clássicos do punk, as mixtapes de produtores de hip hop e em lançamentos mais recentes como os da banda paulista Test, quanto nas características do mundo pós-moderno. Vivemos numa realidade instantânea, caótica e etérea, a Lupe de Lupe se utiliza disso para promover um retalho de imagens aleatórias do que a banda encara como um tempo líquido em que as pessoas ouvem playlists e não álbuns, jogam jogos de mundo aberto com inúmeras rotas e procuram qualquer tipo de prazer momentâneo para aguentar mais um dia. Um Tijolo Com Seu Nome explora todas essas possibilidades, sendo elas boas ou ruins. Cada audição é uma ordem e uma experiência diferente. Fotografia da capa por Bruna Costa. Lançamento via Geração Perdida e Balaclava Records. Um disco pra ser ouvido no aleatório.

#15 ANA FRANGO ELÉTRICO - ME CHAMA DE GATO QUE EU SOU SUA


Confesso que nunca dei muita atenção para as produções da Ana Frango Elétrico, mas o fato desse disco ter saído, também, via o selo Mr. Bongo me instigou a curiosidade. 
Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua é uma verdadeira carta de amor de Ana Frango Elétrico à música brasileira. Terceiro disco de estúdio da cantora celebra o encontro do pop brasileiro atual com a MPB setenta/oitentista. O disco cheira a vinil e parte de uma audição atenta sobre a produção nacional entre os anos 1970 e 1980, aponta para a obra de veteranos da indústria, principalmente personagens que atuaram nos bastidores, mas em nenhum momento deixa de lado a vulnerabilidade poética. São dez composições que destacam a força dos sentimentos, estreitam laços e reverberam para além de qualquer qualidade técnica. Lançamento via Risco, Mr. Bongo e Think! Records.

#14 PUMAPJL - AUTODOMÍNIO


Em novo projeto nomeado Autodomínio, Pumapjl conversa com seu último trabalho lançado, onde são abordadas suas aventuras do cotidiano e desejos que hoje viraram realidade graças aos frutos colhidos com este trampo. São sete faixas de boom bap em colaboração com o beatmaker SonoTWS, que assinou todos os instrumentais. Pumapjl, nascido e criado no subúrbio do Rio de Janeiro, começou alguns experimentos musicais retratando seu cotidiano. Hoje, Puma retrata as turbulências e aventuras da infância/adolescência em suas músicas, algumas delas presentes no EP Naturalidade que já bateu mais de 50 milhões de plays nas plataformas de streamings. De Jundiaí, SonoTWS iniciou sua carreira musical como seletor no sistema de som jamaicano, fazendo parte do Jurassic Soundsystem e fundador do You&Me on a Jamboree (um dos blogs referência no garimpo de raridades jamaicanas). Seus beats, feitos com samples de vinil antigos na Emu SP1200 & Akai S950, seguem a linha mais suja do rap. A capa foi assinada pela Nihao e faz referência à capa do álbum mítico de Arthur Verocai. A direção criativa foi feita pelo Cegocreative, nos scratches Dj Novset e a mix/master pelo monstro 2F U-FLOW.

#13 DAMN YOUTH - DESCENDS INTO DISORDER


Cinco anos após o lançamento do seu primeiro disco, Breathing Insanity (2018), a banda cearense de thrash metal antifascista, Damn Youth, volta com o animal Descends Into Disorder. São dez faixas crossover/thrash metal até o talo, consolidando a banda como um dos grandes nomes do estilo no Brasil e na América do Sul. Ouvi algumas críticas em relação a produção e qualidade da gravação do disco por aí, coisa de sudestino. O pessoal quer ouvir metal maloca com a produção da Beyoncé, assim fica difícil. Chuva de riffs e críticas às contradições geradas pelo sistema capitalista de produção. O disco foi gravado na Punkhouse studios em Fortaleza (CE), com produção da própria banda e de Henrique Marques. A produção executiva ficou a cargo de Roger Capone e a pré produção, captação, edição, mixagem e masterização a cargo de Henrique Marques no incasamix. A linda arte da capa foi pintada pelo Giotefeli. Lançamento em conjunto via Läjä Records, Cospe Fogo Gravações e 255 Records. Nordeste neles!

#12 DEAFKIDS - RITOS DO COLAPSO


Ritos do Colapso é o novo trampo da banda Deafkids. O trio paulista reúne nesse disco uma versão remixada/remasterizada dos três últimos EP's de mesmo nome, anteriormente lançados apenas digitalmente durante a pandemia, com a adição de duas músicas feitas exclusivamente para o jogo Cyberpunk 2077. A distopia reina no jogo e em nosso mundo real, a música do disco captura a surrealidade da sobrevivência nesses últimos anos de ascensão da extrema direita no mundo, pandemia, confinamento, guerras, crises sociais, governamentais e climáticas. São ao total quatorze faixas ritualísticas onde o Deafkids mais uma vez ultrapassa os limites da música punk engessada, criando passagens abstratas com foco em ritmos afro-indígenas brasileiros e manipulações eletrônicas com o uso de congas, djembes, bongôs, tablas, flautas, cuíca, baterias eletrônicas, samplers e sintetizadores – explorando uma linguagem quase absurda na pós-produção. Gravado por Douglas Leal e Felipe Pato. A mixagem ficou a cargo de Douglas Leal, a masterização por conta de André Leal e Kleber Mariano no Estúdio Jukebox em Volta Redonda. Destaque para o projeto gráfico do álbum desenvolvido por Douglas Leal. Deafkids é, como sempre, uma viagem! 

#11 RACIONAIS MC'S - RACIONAIS 3 DÉCADAS (AO VIVO)


O Racionais MC's é, incontestavelmente, um dos maiores expoentes da música popular brasileira na atualidade e, sem sombra de dúvida, o maior e mais relevante grupo de rap em atividade do Brasil. Mano BrownEdi RockIce Blue e KL Jay excursionaram pelos maiores palcos e festivais do país durante uma turnê comemorativa iniciada em 2019 e, agora, apresenta ao público essa performance em Racionais 3 Décadas, disponível nos formatos de áudio e vídeo. Gravado em São Paulo, essa não é a primeira vez do quarteto em formato ao vivo, o novo material chega dezessete anos após  1000 Trutas, 1000 Tretas, de 2006, histórico show do grupo no Capão Redondo, zona sul de São Paulo, e conta com o repertório atualizado do grupo. O álbum possui vinte e duas faixas que abrangem toda a discografia do Racionais. Destaque para as versões e arranjos repletos de groove tocados pela banda de apoio que os acompanhou no decorrer dessa turnê. Celebração mais do que merecida para o grupo, que está mais forte e relevante do que nunca. Vida longa aos Racionais MC's!

#10 JULICO - ONIRIKUM


Julico, vocalista, guitarrista e compositor da The Baggios, banda sergipana com duas indicações ao Grammy, jogou na praça o segundo disco de sua carreira solo, Onirikum. Sucessor do maravilhoso Ikê Maré (2020), Onirikum foi concebido ao longo de três anos e segue mergulhado ainda mais na influencia da música brasileira, principalmente na sonoridade da soul music mesclada ao samba rock, samba jazz, música nordestina, além das doses suaves do blues rock também presentes no Baggios. O disco pode ser facilmente considerado um tributo à música brazuca. Lançado através do selo Toca Discos, apresenta treze faixas. O título do trabalho deriva da palavra “onírico”, que significa “relativo a sonhos”O próprio músico, além de produzir o disco, gravou baixo, violão, guitarras e vocais. Completando o time teve na bateria seu amigo Ravy Bezerra e Thiago Babalu na faixa "Quero Colo", percussões de Betinho Caixa D’agua, teclas por Leo Airplane, trompete por André Lima, saxofone por Mario Augusto, trombone por Jeovane Lima. Participação Especial Fernanda Broggi em “Motivo de Saudade”. A belíssima arte da capa remetendo ao surrealismo foi desenvolvida por IA.

#9 MÃE QUE DÁ MEDO - MANEJO FÁLICO


O projeto experimental alagoano Mãe Que Dá Medo é formado pelo duo Gabriela Ramos (guitarras, baixos, beats e backing vocais) e Victor Mafra (baterias, vocais e letras). Seu segundo trampo, Manejo Fálico, combina uma gama de ritmos que vão da música eletrônica ao rock alternativo, passando por momentos mais ruidosos e experimentais até passagens de metal extremo. Esse mix de referências musicais dá ao disco uma vibe meio que de coletânea com várias bandas diferentes tocando e isso é ótimo, pois, além de gerar uma sonoridade dinâmica e original, não torna a audição do álbum cansativa. As dez faixas de Manejo Fálico foram gravadas de forma independente em Maceió, com mixagem e masterização por conta de Julia Soares. Participação de Clemens Scharge nos beats da última faixa, gravada ao vivo. Arte da capa por Damaged Artwork. Destaco as faixas "fag attack", "casa do caralho" com uma passagem meio Adelino Nascimento no final e a sonic youthzêra "(> . <)". Contra toda a caretice da música maceioense e ótimo pra ouvir após o consumo de drogas pesadas baratas. 

#8 ELZA SOARES - NO TEMPO DA INTOLERÂNCIA


Lançado na data em que Elza Soares completaria 93 anos, No Tempo da Intolerância marca a despedida de uma das maiores vozes da música nacional. Entre composições autorais e colaborações com nomes como Dona Ivone Lara, Rita Lee, Josyara e Isabela Morais, o registro começou a ser desenhado logo após Planeta Fome (2019), mas ficou um ano na gaveta após o falecimento da cantora, em janeiro de 2022. Com produção de Rafael Ramos, o trabalho com dez faixas foi finalizado em parceria com Pedro Loureiro, empresário, e Vanessa Soares, neta da artista. Algumas letras de músicas foram garimpadas por Pedro nos cadernos de Elza, como uma citação a Martin Luther King. O registro propõe um encontro de estilos em que passeou ao longo da carreira de sete décadas. Dentre os assuntos abordados, Elza fala de justiça social, direitos das mulheres e da população negra, traçando paralelos com seus últimos discos: Planeta Fome (2019), Deus é Mulher (2018) e A Mulher do Fim do Mundo (2015). Na época do seu falecimento, a artista finalizava No Tempo da Intolerância e o projeto Ao Vivo no Municipal, lançado em maio de 2022. Ambos os projetos foram criados em parceria com a Deck, responsável também pelo disco Planeta Fome.

#7 EXPURGO - LIVE OBSCENITY


Os grinders do Expurgo agrediram nossos tímpanos novamente, dessa vez com o álbum, Live Obscenity, um registro histórico gravado em 2018 (mas lançado somente em 2023) ao vivo no aniversário de vinte anos do lendário Obscene Extreme Festival - considerado o maior festival de música extrema do mundo. O primeiro disco ao vivo da banda tem uma qualidade de gravação muito boa e reúne vinte e cinco faixas grindcore implacáveis. A banda é altamente produtiva e tem a reputação de lançar materiais cada vez melhores ao longo dos anos. Ao ouvir toda a sua discografia, percebe-se que eles estão definitivamente evoluindo ao longo do tempo, adicionando novas técnicas ao seu som e experimentando diferentes abordagens de escrita. Além de suas decomposições autorais, o setlist dessa apresentação trouxe covers de Ulcerous Phlegm, Corrupted, Regurgitate e Impetigo. Gravação via Lunatic Media. Mixagem a cargo de Philipe Belisário e Expurgo no Lacraias Studio. Foto da capa por Gergana Bozhanova. Lançamento em CD via Black Hole Productions. Recomendado apenas para pessoas com os ouvidos calejados no barulho.

#6 SAIN - KTT ZOO


Sain, que já havia conquistado reconhecimento com seus trabalhos anteriores, demonstra uma considerável evolução lírica e técnica em seu novo álbum, KTT ZOO. O rapper se destaca por sua versatilidade, demonstrando uma maturidade artística que impressiona em seu último trampo. Composto por dez faixas, o disco apresenta uma mescla de estilos e influências, trazendo elementos do boom bap anos 90 de NY misturado com bases jazzísticas  e com a estética dos bailes do Rio. KTT ZOO trás participações especiais de peso como Febem, Felp22, Douglas Lemos, Marcelo D2, Erik Skratch e Lord Apex, que acrescentam ainda mais brilho e diversidade ao projeto. Além das faixas musicais que trazem histórias e experiências do Catete e da vida do rapper, a capa desse álbum é algo que realmente chama atenção, conseguindo transmitir e se conectar perfeitamente com o que é proposto no álbum. Essa arte incrível foi assinada por Mudo e Testemunha.midia. 

#5 DEADTRACK - INHUMAN


Formada em meados de 2014, a banda mineira Deadtrack lançou esse ano o enérgico Inhuman. O curto disco incorpora elementos musicais vindos do grindcore, death metal e do hardcore no decorrer de suas intensas nove faixas, marcadas por explosões rápidas de blastbeats e andamentos mais lentos e pesados. A produção cria uma ambientação poluída que combina com a proposta do disco, os timbres de guitarra e baixo são graves e, assim como os vocais e bateria, se expressam com ferocidade. As letras são na língua inglesa e baseiam-se em questões políticas e sociais, tratando de temas atuais como desigualdade de classe, antifascismo e opressão de uma forma mais subjetiva. A sonoridade não se limita apenas a um estilo ou ritmo e essa combinação de elementos certamente é um fator que enriquece as músicas da banda. Inhuman é uma boa pedida pra quem curte um grindcore mais groovado e moderno. 

#4 AGUIDAVI DO JÊJE - S/T


"O que esta obra de arte propõe é uma longa viagem atlântica" diz Nei Lopes na contracapa do Aguidavi do Jêje, primeiro disco da orquestra de atabaques baiana. O grupo conta com 14 integrantes Ogans do Terreiro Zogodoo Bogum Malê Hundo, talentos da música baiana, de idades entre 15 e 45 anos, liderado por Luizinho do Jêje, músico nascido e criado no Bogum. Considerado um gênio dos atabaques, Luizinho já foi percussionista do Quinteto Letieres Leite, Olodum, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Margareth Menezes, Gilsons, Daniela Mercury, Mateus Aleluia, Virgínia Rodrigues e Orkestra Rumpilezz. O lançamento do álbum de mesmo nome, Aguidavi do Jêje é uma experiência sonora que celebra a ancestralidade afro-baiana, com sete faixas autorais gravadas no Terreiro de Bogum, quilombo mais antigo da Bahia. O som dos atabaques e a riqueza das tradições culturais marcam a essência desse disco. O álbum conta com a participação especial de Gilberto Gil e Carlinhos Sete Cordas. Lançamento em vinil via Rocinante e Três selos.

#3 BIKE - ARTE BRUTA


Arte Bruta é o quinto álbum da banda paulista, Bike. Com a produção de Guilherme Held, discípulo na guitarra do finado Lanny Gordin, e músico que já trabalhou com diversos astros da MPB, o Bike chega muito perto da psicodelia praticada pelas bandas brasileiras dos anos 70 e 80, algo entre Som Imaginário, Casa das Máquinas e Violeta de Outono. Em pouco mais de meia hora, o Bike mostra faixas psicodélicas como Além-Ambiente, O Torto Santo, Clara-Luz, Traço e Risco, Um Encontro do Céu Com a Terra, um momento kraut como em Filha do Vento, e as brasileiras afro-tropicais Cedro e Santa Cabeça. Com treze músicas, em pouco mais de 33 minutos, certeiro e direto ao ponto, o Bike concretiza um dos melhores álbuns do ano. Gravado por Gustavo Mendes e Guilherme Held no Estúdio Held em São Paulo. Mixagem por conta de Guilherme Held e masterização por Fernando Sanches no Estúdio El Rocha. Arte da capa por Juli Ribeiro. Lançamento via Quadrado Mágico e Before Sunrise Records

#2 DRONEDEUS - AMBIENTE DE RUA


Dronedeus é um quinteto fortalezense que mistura spoken word, triphop e experimentalismos eletrônicos, projeções e performances. Voz, textos, poesia, samples, distorções, imagens, movimentos, tudo misturado para apresentar uma paisagem visual, que conversa com a tradição da poesia sonora e do art rock, ou rock de vanguarda, mergulhando no universo das performances sonoras e imagéticas. Criada a partir do encontro dos textos de Lenildo Gomes e da música de Vitor Cozilos, Rudriquix e Clau Aniz, o projeto de arte sonora busca ultrapassar alguns limites dos gêneros artísticos que compõem seu escopo criativo. Na formação atual, foi incorporada a experimentação em audiovisual de Tuan Fernandes. Como resultado, temos uma experiência que transversaliza o encontro entre música e literatura, textos e ruídos, imagens. Em Ambiente de Rua, lançado pelo selo Mercúrio Música, as letras e performances visuais seguem o caminho das ruas desabitadas, das pessoas perdidas em lugar algum (ou em não-lugares) e da permanente tentativa de sobrevivência mediante o caos. Recheado de ruídos urbanos, timbres eletrônicos e experimentações, o álbum foi produzido por Briar e masterizado por Klaus Sena. O trabalho traz novamente a participação de Marta Aurélia e conta, dessa vez, com o vocal gutural de Haru Cage, vocalista da banda Corja. Destaque para a capa do disco, assinada pela artista Amanda Nunes.

#1 ANTISKIEUMORRA - PRONTO PRA DESAGRADAR


Antiskieumorra, banda veterana de Natal, Rio Grande do Norte, lançou próximo ao final do ano o álbum Pronto Pra Desagradar. O disco joga na nossa cara vinte faixas fastcore em aproximadamente meia hora e marca o retorno da banda ao estúdio depois de dez anos após o Mais Rápido que Imediatamente (2013). É também um trabalho comemorativo aos 20 anos de atividade da banda, que recentemente também voltou aos palcos de forma mais regular depois de um longo período de aparições esporádicas. Pronto Pra Desagradar aborda, dentre tantos outros assuntos, questões relacionadas ao momento politico e social que estamos atravessando desde à ascensão da extrema direita no país como: A expansão do agronegócio e consequentemente as catástrofes climáticas, o genocídio indígena, o bolsonarismo, o militarismo, o conservadorismo, entre outras doenças contagiosas. Lançado de forma independente, o disco conta com a mixagem e masterização de Nicolas Gomes. A expressiva arte da capa foi criação de Wendel Araújo. 

quinta-feira, 18 de janeiro de 2024

A recolonização da escuta (o túmulo da musica independente)

 

Serviço de streaming está monopolizando nossos ouvidos e impacto disso na qualidade da produção musical.


 Por Michel Carvalho


Pois é, o mundo gira, mas as contradições continuam. Muita gente acreditou que a internet iria ajudar os artistas a se libertarem da lógica mercadológica do monopólio das grandes gravadoras de outros tempos. Em alguma medida isso pode ter acontecido momentaneamente, mas o que mudou de fato, foi a dinâmica de controle da indústria musical na mão de algumas poucas multinacionais.

Ainda que muitos vejam as plataformas de streaming como uma ferramenta indispensável para a exposição de seu trabalho artístico pela possibilidade de disponibilizar suas músicas online sem a necessidade de desembolsar muito dinheiro pra isso ou de uma grande gravadora por trás - usando serviços de distribuição digital e permitindo que sua música alcance audiências em todo o mundo, mesmo sem uma presença física - É interessante levar em consideração que, para além da exposição desejada, essa falsa sensação de independência tem nos tornado totalmente dependentes e sujeitos às políticas e algoritmos das plataformas de streaming, onde mudanças constantes nas regras impactam na visibilidade, produção e receita dos artistas independentes. A compensação gerada na imensa maioria das vezes é insuficiente para cobrir sequer os custos de produção do próprio fonograma, entre outras várias problemáticas.

Em 2024, o Spotify irá deixar de pagar faixas que não chegarem a 1k de plays por ano. Esse dinheiro vai para os maiores artistas da plataforma (maioria gringos), aumentando ainda mais as contradições já existentes no aplicativo. O valor do pagamento médio por execução é de cerca de 2 centavos de real. Esse dinheiro não vai diretamente para o artista. A maior parte vai para quem detém os direitos sobre o fonograma - como é conhecida a gravação da música. Uma parcela menor vai para o autor, que detém os direitos sobre a composição em si, abrangendo a melodia e a letra. Até o ano passado, o Spotify já havia desembolsado para artistas como a Taylor Swift cerca de 350 milhões de reais. Mas para músicos independentes os valores pagos não dão nem para comprar um par de baquetas. Usei o exemplo do $potify, mas se aplica pra YouTube, Deezer, Normal Free etc.

Além disso, a dinâmica do algoritmo dessas plataformas vêm influenciando severamente desde o processo criativo, passando pela padronização da qualidade e timbragem de mixagens e masterizações, até mesmo nos discursos vinculados à música (afinal, não é todo discurso que engaja), condicionando de forma hegemônica nossa escuta e alterando nossas formas de expressão e comunicação, subordinando o mercado musical à estrutura das mídias sociais - onde a curadoria de festivais e casa de shows são baseados em número de seguidores por exemplo. Essa reconfiguração das formas de produção musical de uns anos pra cá têm alimentado a lógica que para ter potencial no mercado fonográfico, os artistas devem trabalhar para o algoritmo dessas empresas.

É fato que esse fenômeno tem muito mais impacto para a grande indústria, mas acaba contaminando todos que ocupam esse mesmo ecossistema. Qualquer artista que tenha perfil em rede social e música nos serviços de streaming esta subordinado de alguma maneira a essa estrutura. O monopólio dessas plataformas não nos dá opção a não ser nos sujeitar a permanecer nesse ambiente, mesmo sendo constantemente usurpados e hostilizados.

Na atual dinâmica dos streamings, nosso corre independente se tornou "grátis" a medida que, paradoxalmente, custa cada vez mais caro produzir nos moldes que o algoritmo pede. Na real, o que gera receita é publicidade, a música se tornou apenas a trilha sonora na sociedade do espetáculo, tornando tudo uma grande propaganda pra vender algo. As grandes questões são: Vamos continuar alimentando nossos exploradores? Qual seria a saída desse abismo?

Algumas pessoas apontam para outras plataformas tal qual o iTunes ou o Bandcamp como uma alternativa possível, mas que também possuem uma série de limitações. Ao contrário das plataformas que pagam por views, o Bandcamp permite que os usuários comprem os discos ou singles dos artistas no formato digital. O grande problema é que a venda desse formato de música não vingou no Brasil e existe muita falta de interesse em guardar arquivos digitais hoje em dia. Mesmo que o artista tenha um número de audições alta, a venda do álbum digital se dá em dólar, isso pressupõe a existência de um público no exterior.

Como se vê, a uberização do artista independente diante desse novo panorama de produção musical é um fenômeno bastante complexo e possui várias camadas que esse descompromissado papo de mesa de boteco não conseguiria abarcar. Assim sendo, acredito que a saída se dê pela via do fortalecimento de relações reais como: ir aos shows, comprar um merchandising do artista que você gosta, apoiar campanhas de financiamento coletivo - ou seja, nenhuma novidade. O papel de um público comprometido e ativo é importantíssimo nesse sentido. Não sou contra que se escute ou se use plataformas como o Spotify (inclusive também uso bastante), pois cumpre um papel e pode servir até pra dar visibilidade pros lançamentos físicos e demais produções. Lembrando que a venda de míseros 7 CDs numa gig desleixada em um final de semana pode ser mais lucrativo e vantajoso que um ano de Spotify.

É essencial reconhecer que a tecnologia avança, as coisas progridem e que pouquíssimas pessoas ainda escutam música no formato físico, porém nem toda ideia de progresso é estritamente benéfica - basta olhar o preço que o "progresso" está nos cobrando enquanto sociedade. Por isso, penso que a troca do streaming por discos, CDs e MP3 (ou o uso conjunto de streaming e mídias físicas) exige esforço. No entanto, a escuta é diferente. A experiência é mais focada, mais engajada (veja só). No final das contas, é você que terá que decidir se sua escuta é ativa ou passiva, se é algo que você está fazendo ou se é algo que você está apenas recebendo apaticamente. Afinal, não dizem por aí que tudo é político.