terça-feira, 30 de agosto de 2016

Entrevista: Seein' Red

  




Entrevista inédita com Paul - Seein'Red/Lärm/ManLiftingBanner.
Por: Richard UPS  e Juberto Mutante, gentilmente cedida 
à Revista Ruptura.


Tradução: Frederico Martins
 Michel Carvalho


Por favor, apresente-se para os poucos leitores que não sabem, ainda, quem é você e desde quando você está envolvido com a cena punk DIY etc.

Meu nome é Paul van den Berg e eu tenho tocado guitarra em bandas punk diy desde os anos oitenta. Meu irmão, Olav, e eu estávamos interessados no punk desde o início de 1977, mas, nós éramos praticamente os únicos punks em nossa cidade natal, Amersfoort. Ao final de 1979 nós conhecemos Jos, que viveu em Achterveld. De todos os lugares, nós o encontramos em uma lanchonete, ele usava botons de bandas punk, então começamos a conversar com ele e nos tornamos amigos. Essa amizade também foi o início da nossa primeira banda no início de 1980: The Sextons. Isso com Paul na guitarra, Olav na bateria, Jos nos vocais e Alex (um amigo de Jos) no baixo. Gravamos 2 fitas com esta banda e tocamos em uma gig com o BIZONKIDS. Logo depois nós desligamos da banda porque Alex se envolveu com drogas pesadas. Tivemos algumas bandas de vida curta depois, com nomes como DISTUBERS, RAZZIAS, TOTAL CHAOZ. Mas quando nos tornamos Lärm as coisas ficaram mais sérias. Naquela época, 1982 eu acho, o line-up era: Menno nos vocais, Dorien nos vocais, Jos no baixo, Olav na batera e Paul na guitarra. Começamos a fazer demos (algumas canções saíram no "holland hardcore tape volume one") e fazer gigs. Dorien saiu porque realmente não conseguia lidar com o estresse, ficava muito bêbado quando tínhamos que tocar ao vivo. Isso nos deixou com o line-up da Lärm que todo mundo conhece. Tocamos em muitas gigs e quando ficamos amigos da STANX, decidimos fazer o nosso primeiro disco, um split LP com o STANX. Nós chamamos o nosso lado do registro de "Campaign For Musical Destruction" porque essa era basicamente do que o Lärm se tratava, porque nós realmente não podíamos tocar os nossos instrumentos, nós usamos um monte de distorção para camuflar que nós estávamos fora de sintonia e a maioria das nossas canções foram apenas uma explosão de barulho! Mais tarde, esse registro se tornaria muito lendário. O Lärm faria dois EP's "No One Can Be That Dumb", "Nothing Is Hard In This World If You There To Call The Heights" e um outro LP chamado "Straight On View", tocamos em muitas gigs na Holanda e na Bélgica, tours na Espanha, Alemanha e Reino Unido. Fizemos vários passeios com o HERESY! Nessa Época, fizemos também "Er Is Hoop Tapes" e fizemos dois fanzines: "Alarm 84" e "Defnite Choice". Com o Defnite Choice, fizemos também fitas VHS e organizamos concertos no Kippenhok, uma igreja ocupada e depois em uma mansão também ocupada. Teve BGK, Negazione, Government Issue, Kaaos, Pandemonium, Kina, WCF e mais. Depois de 7 anos o LÄRM Chegou o fim. Menno quis se concentrar na Faculdade de Direito e Mudou pra Amsterdam. Além disso, ele se cansou de cena HC. Olav, Jos e eu ainda não estávamos cansados e quisemos continuar com a SEEIN RED. No começo estávamos com: Olav na batera , Paul na guitarra , Bart no Baixo e Jos nos vocais. Nesse line-up fizemos nossa primeira gravação pra o LP coletânea Intifada. Jos não se sentiu Bem Como vocalista e voltou para o baixo e decidimos de continuar com 3 membros. Bart Saiu, mas voltou nas bandas Profound/ Colt Turkey/ ManLiftingBanner. Nesse line-up de três fizemos Mais de 22 Anos de Barulho, lançamos muitos discos, dos quais muitos splits com bandas como Opstand, MK Ultra, Stack, Catweazle, Mihoen, Shikari, Judas Iscariot, Human Alert, Antidot, Now-Denial, Framtid... Fizemos centenas de concertos e turnês Pelo Europa , EUA e Japão. Olav & Eu tocamos lado a lado no Profound, COLT TURKEY & MANLIFTINGBANNER. E Jos tocou também em ORWELL NATION, KRIEGSTANZ & STAATHAAT.

O ano de 2011 viu o fim do SEEIN RED e do LÄRM. Conte-nos mais sobre isso.

Em Abril de 2011 nós tocamos com o LÄRM num concerto na Itália junto com o Dropdead. Depois desse concerto Jos ficou com Problemas em seus ouvidos. Ele foi a um médico e foi diagnosticado com uma infecção na orelha e graves danos na audição (90% perdida numa orelha e 60% na outra). Todos os médicos deram o conselho de parar imediatamente com bandas como estas.

Jos e Paul em 1990.

Se não fosse pela audição de Jos, qual era a perspectiva para o Seein Red no futuro? Há alguns anos não estava ameaçada a continuação do Seein'Red por conta de uma lesão permanente no ombro do baterista Olav?

Nosso objetivo foi mais ou menos de continuar, tanto que nós ainda tínhamos prazer em tocar e inspiração para novas musicas e letras. Nesse verão de 2011 tocamos com o SEEIN RED & LÄRM no Caos Teja's Fest e íamos tocar também no festival Punk Illegal. Passagens já tinham sido compradas e tivemos que anular tudo, mesmo com todos concertos já planejados. Nessa época, estávamos fazendo novas musicas para um novo disco e tínhamos planos de turnês pro Brasil/América do Sul, talvez nos EUA novamente, Ásia e Austrália. Também com o LÄRM quisemos continuar fazendo de 1 à 3 concertos por ano, porque nos deu muito prazer. Olav teve na época uma grave infecção de pulmão e por isso não pôde tocar bateria por meses. Está felizmente curado, mas tem chances de voltar.

Seein'Red ainda era uma banda ativa enquanto o LÄRM veio apenas, de forma esporádica, reunir-se para um show anual? Foi este o acordo com o LÄRM? Lembro-me que houve primeiro um show do LÄRM com um cantor convidado (Roy do BSE). Depois vocês reataram com o vocalista original Menno novamente. Como foi ver e tocar com ele novamente depois de tantos anos?

A volta do LÄRM foi, em grande parte, coincidência. O Seein Red foi convidado pra tocar no Classic Fest (um festival Holandês onde bandas Holandesas tocam covers de bandas clássicas) e eles pediram-nos simplesmente para fazer o cover do LÄRM. Então fizemos assim. Primeiro Queríamos chamar Menno pra cantar, mas ele não morava mais no endereço que tínhamos dele e não o acharam. Então perguntamos a Roy, sabendo que ele era grande fã do LÄRM. Quando as pessoas ouviram que íamos tocar LÄRM, recebemos mais convites pra fazer mais shows dessa forma. No fim, decidimos fazer 3 shows com Roy. Anos depois, Jos entrou em contato com Menno de novo graças a internet, nos e-mails falaram desse show e Menno disse: "porque não me pediram?". Quanto fomos convidados pra tocar como LÄRM no Trash Fest em 2005, pedimos Menno e o elemento disse sim! Como foi? No primeiro ensaio já tinha aquela química e o velho humor de volta! Nem pareceu que se passaram 20 Anos. Claro, ficamos todos mais velhos e Menno saiu de cena faz tantos anos, porém o elemento não havia mudado quase nada e "vapt-vupt" soubemos tocar mais de 30 sons do Lärm perfeitamente, foi Incrível! O concerto no Trash Fest foi um sucesso. Menno nos disse que ele gostou muito e na próxima oportunidade queria cantar de novo. Desde então, tocamos em 1 à 3 concertos por ano.

O LÄRM lançou recentemente um novo LP com músicas antigas regravadas. Depois de todos esses anos de experiência e melhorias tecnológicas, era tudo diferente do que as sessões de gravação por volta da década de 80?

Na verdade não. Como músicos melhoramos, claro! Mas com as músicas do LÄRM, só tem um jeito pra tocar, então assim, não difere muito dos anos 80. E também, esse disco, como nos outros dos anos 80, foi gravado em 3 horas e mixamos em 3 horas. A Única diferença, talvez, seja a experiência mesmo. Nos Anos 80 não tínhamos experiência nenhuma como músicos e nem com estúdios, ficávamos muito mais tensos, mas ao mesmo mesmo tempo, nos sentíamos mais espontâneos. Fizemos com o Seein Red uns 50 lançamentos e fomos tantas vezes pra Estúdio que, dessa forma, adquirimos muito mais experiência. Mas Quisermos com esse novo disco do LÄRM fazer uma gravação mais espontânea possível, gravando bem rápido sem pensar e sem mudar muita coisa.

Lärm em ação.

Então o Seein'Red e o LÄRM tiveram seus shows de despedida ao mesmo tempo, houve um novo show onde você gravou oito canções novas que foram lançados no MANLIFTINGBANNER discography 2LP. É a formação original junta novamente? Qual é o estado da MLB no momento e quais são os planos para o futuro?

Quando o SEEIN Red & LÄRM estavam terminando e preparando os últimos shows, estávamos fazendo com a MANLIFTINGBANNER uma discografia. Peter Hoeren da Crucial Response já tinha há anos o plano pra lançar nossa discografia em vinil e quando nós concordamos, quisemos um resultado muito bem feito. Qualidade de som, arte e tal. Então, logo decidimos que tinha que ser um LP duplo, porque com musicas demais num disco, a qualidade fica ruim. Assim, tínhamos músicas pra 3 Lados. O que colocar no Lado 4? Falamos de outtakes, músicas de coletâneas, músicas ao vivo... Mas logo Michiel e Bart surgiram com uma ideia pra gravar musicas novas e isso resultou em 8 musicas novas gravadas com o line-up original. O plano também foi de fazer uns shows ao vivo com essa formação original, mas de Repente Big Saiu. Michiel e Bart pediram a Johannas Adahl (ex-Sober Response e ex -Vitamine X) pra tocar no lugar de Big. Com esse line-up é que estamos tocando agora. O MLB não é uma banda ativa o tempo todo, como foi o Seein Red. Ao contrário, funcionava mais como um projeto por causa da vida e agendas ocupadas de Michiel e Bart e suas famílias. Então ensaiamos irregularmente e fazemos shows de vez em quando. No momento estamos mais ou menos parados, mas logo vamos ensaiar de novo porque vão ter dois concertos em OCCII, Amsterdam e Bielefeld, Alemanha. Vamos fazer mais músicas novas e quem sabe, vai ter um disco novo do MLB ainda esse ano (2013).

O Seein'Red deveria visitar o Brasil em 2004, mas no último minuto não o fez. Um monte de amigos brasileiros estavam ansiosos para o show e ficaram muito desapontados porque não aconteceu e todo tipo de rumores e histórias malucas se deu em volta. Você pode dizer aos nossos leitores brasileiros de uma vez por todas o que houve pra turnê não acontecer?

Isso foi há muito tempo. Foi organizada uma boa turnê, com muitos concertos com bandas legais. Então estávamos muitos entusiasmados. Tudo pareceu bem Organizado. Umas pessoas da cena brasileira tinham bons contatos nas companhias Aéreas e arrumaram assentos de segurança. Então fomos com as malas para o aeroporto de Amsterdam e lá fomos encontrados por uma aeromoça perguntando se nós éramos a banda Seein'Red. Certo, mas na conversação seguinte, descobrimos que só havia 1 assento garantido de Amsterdam para São Paulo e pra os outros dois de Amsterdam pra Paris. Lá de Paris tínhamos que ver se tinha lugar pra São Paulo ou não. Isso foi muita confusão e sempre fomos uma banda 'um por todos e todos por um', então não estávamos felizes com essas notícias. O organizador (esqueci o nomo dele) foi contactado e não pôde garantir lugares no mesmo voo ou em outro voo. E falando mais, descobrimos que pra o voo de volta tinha o mesmo esquema, sem garantir o voo. Essa foi a razão pra cancelar a turnê, no aeroporto com malas nas mãos. Não pudíamos atrasar na viagem de volta e ter problemas com nossos trabalhos. Pode crer, foi uma situação e decisão muito difícil. Nos preparamos tanto, já no aeroporto com malas na mão, vacinas, férias de trabalho e uma difícil despedida de nosso pai (Olav e Paul são irmãos), que estava com câncer em casa. Não sabíamos quanto tempo de vida ele tinha, mas ele falou: "Vão de qualquer jeito à turnê!". Olhando agora, seria melhor que tivéssemos comprado as passagens no mesmo voo e deixado pra receber o dinheiro da volta com o dinheiro dos ingressos dos shows... Como sempre fazemos. Desse jeito, a turnê tinha com certeza sido realizada.

Se você pudesse voltar no tempo e fizesse a turnê brasileira em 2004, com que bandas teria gostado de tocar? Além dessas, de que bandas brasileiras modernas que você gosta hoje?

Em 2004, nós definitivamente queríamos tocar com os três grandes Cólera, Olho Seco e Ratos de Porão. Eu acho que tudo que existia naquela época. Mas também com bandas como Discarga, Abuso Sonoro, Contamine, Social Chaos, Ação Direta, I Shot Cyrus, Dominatrix, Sick Terror etc. Havia um monte de grandes bandas naquele momento. Hoje em dia eu gosto muito do Ódio Social & RITORSIONE!    

           
Se você olhar para trás, nas bandas que você tocou - Lärm, Seein'Red, Profound, Colt Turkey e ManLiftingBanner - percebe-se que cada banda teve a sua própria identidade, do Seein'Red a partir de um estilo mid-tempo no começo ao fastcore do LÄRM. Olhando para trás, como você descreveria/comentaria cada banda.

LÄRM: Bem, quando começamos essa banda nós realmente não podíamos tocar os nossos instrumentos, nem sabíamos como ajustá-los. Jos tocando com 1 ou 2 cordas, e nós dois colocando muita distorção e fuzz em nossos instrumentos para camuflar a nossa falta de habilidade. O nome LÄRM (que significa barulho em alemão) fala por si. Foi definitivamente uma banda de Punk hardcore rápida e ruidosa, ou como nós chamávamos: Ruído extremo! Também foi uma das primeiras bandas europeias straight edge misturado com letras radicais de esquerda. No último EP jogamos com instrumentos sintonizados.

SEEIN' RED: Após 7 anos fazendo um som curto, rápido, alto e barulhento, queríamos fazer algo diferente. Então começamos a experimentar coisas mais melódicas e mid-tempo, tentamos colocar influências de bandas como MINUTEMEN, FAITH, FUEL, INGNITION, RONDOS, THE CLASH, DILS etc. Mas, depois de alguns registros, sentimos que falhamos em fazê-lo. Tudo parecia um pouco besta e provavelmente, muito afetado. Então, de forma lenta porém firmemente, mudamos de volta para um som mais rápido e mais furioso. Um som que se ajustou às letras políticas irritadas de esquerda. Nós duramos por 22 anos e tivemos um percurso maravilhoso, aquela banda foi nossa vida!

PROFOUND: Na verdade, quando a banda começou , Olav e eu fomos convidados para ajudar os caras porque eles queriam começar uma banda de hardcore straight edge mas não conseguiam encontrar um guitarrista e um baterista. Depois de um tempo, ficou claro que nós nos tornaríamos membros permanentes. PROFOUND foi sem dúvida uma borda reta, banda de hardcore influenciada pela juventude de hoje, Lärm, 7 seconds etc, e que também tinha letras socialistas. Nós duramos cerca de 2 anos, lançamos duas demos e um EP.

MANLIFTINGBANNER: Era basicamente o PROFOUND, mas agora também tínhamos Big na banda, como segundo guitarrista. E nós queríamos nos livrar do rótulo sXe e galerinha-da-juventude... MLB era muito mais política e também parecia mais hardcore. Sem dúvida, uma das melhores bandas de hardcore que eu já toquei. Nós duramos vários anos e fizemos um EP e um registro em um LP de 10". Fizemos algumas reuniões e voltamos a ficar juntos novamente em 2011, embora mais como um projeto e não como uma banda ativa.

COLT TURKEY: Era um projeto piada-de-natal com os integrantes da MLB. Bart, que também é um grande cartunista, já tinha um desenho animado da CT e nós queríamos expandi-lo, assim, nós fizemos este registro "natal vermelho" apenas para nos divertir... Apesar de ser uma piada algumas pessoas levaram a sério.

Seein' Red em 1990.

The Rondos parece ser uma influência tanto musicalmente quanto politicamente, não é? Em quais bandas essas políticas foram totalmente integradas? Não é difícil, às vezes, para uma banda com socialistas e comunistas lidar com a parte do dinheiro/negócios da coisa?

The Rondos foram uma influência enorme, por causa dessa banda nós nos atrevemos a iniciar a nossa própria banda. Embora nós realmente não soarmos como eles musicalmente, a forma como eles se aproximam do punk certamente influenciou o nosso som, assim como suas letras e política. Mas também a forma como eles administraram a banda, fazendo seus próprios registros, seu próprio fanzine, ter um squat etc. LÄRM e SEEIN RED foram as bandas totalmente integradas dessas políticas. MLB, PROFOUND & COLT TURKEY também tinha letras socialistas mas Michiel & Bart integraram a política do partido socialista que eles estavam ativos... que é uma abordagem diferente, eu acho. É difícil, porém, mais uma vez nós não começamos uma banda punk para ter uma vida fácil hahaha. Tudo que eu posso dizer é que, certamente com LÄRM e SEEIN RED, nunca nos importamos com toda a parte do dinheiro/negócios. Éramos uma banda sem fins lucrativos, de forma que sempre tocamos apenas para pagar os gastos do combustível, alguns alimentos e bebidas durante a turnê, além de um lugar para dormir. Nós nunca tivemos uma agência de reserva, um gerente, nem temos contratos ou acordos com gravadoras. Nós sempre vendemos nossos registros, camisas, merchan em geral a preços baratos porque levamos essa parte do 'sem fins lucrativos' muito à sério. Não significava que nunca fizemos qualquer dinheiro, porque às vezes as pessoas nos davam mais dinheiro e embora nós vendermos nossos próprios registros e merchan baratos, ainda tínhamos um pouco de lucro. Lucro esse sempre colocado de volta na banda ou em causas políticas. Além de que muitos dos nossos concertos foram beneficentes de qualquer forma, assim como um monte de nossos registros. Eu me lembro que nós fizemos um show de reencontro com o Lärm no OCCII, o lugar estava lotado e eles queriam dar-nos 850 €... Devolvemos todo o dinheiro de volta para o OCCII porque sabíamos que eles tinham planos para renovar o lugar e comprar um novo sistema de som etc. Isso era, basicamente, como muitas vezes tratamos a questão do dinheiro quando se está em uma banda. Olhando para trás, eu acho que nós colocamos nossos ideais marxistas, tanto quanto possível.

Socialistas e comunistas na cena hardcore são por vezes criticados por apoiar um regime que era uma ditadura (stalinismo), enquanto o comunismo , em teoria, é bem diferente. Qualquer palavra sobre isso? Quaisquer pensamentos específicos sobre a China, que se desenvolveram a partir de um estado comunista com um governante no mundo econômico moderno.

Bem, eu acho que nós só somos responsáveis por nossas próprias ações e princípios e deveríamos ser julgados por isso, não julgar-nos em definições do comunismo, que diferem das nossas. Quero dizer que o LÄRM/SEEIN RED nunca escreveram canções em louvor ao stalinismo ou a qualquer um dos países "comunistas". E como você sabe, com o MANLIFTINGBANNER três de seus membros são socialistas internacionais que basearam os seus ideais em: Nor Washington, nor Moskow, mas o socialismo internacional. Assim, nenhuma das nossas bandas podem ser ligados a regimes que eram uma ditadura stalinista. OK, no Lärm às vezes usava-se camisas da URSS e pessoas dentro da cena hardcore criticaram isso também. Por que nós usávamos essas camisas? Em parte, isso era um velho choque de valores na escola punk, porque sabíamos que a cena HC era Anarquista ou apenas política (?), uma camisa da URSS foi suficiente para perturbar as duas facções e isso era bom para começar as discussões que vão dentro de nossa própria comunidade. Colocar no contexto da época (era da guerra fria), tivemos mais simpatia com a URSS ao o imperialismo dos EUA, foi uma declaração política. A URSS foi uma zona para a dominação do imperialismo do mundo... Pelo menos isso é o que nós acreditávamos na época. E que, de certa forma era verdade, porque, depois da queda do Muro de Berlim e, assim, do "comunismo", vimos uma nova era de um neo-liberalismo cruel e todos nós sabemos agora o que isso trouxe para o mundo. Recentemente eu estava lendo alguns fanzines antigos e em uma dessas entrevistas com o Lärm já tínhamos essa visão de que o mundo livre não era livre e o mundo comunista não era comunista... De modo que, já fomos críticos contra os chamados regimes socialistas existentes. Roaders capitalistas assumiram na China e apesar de ainda se dizerem comunistas, todos nós sabemos que o sistema chinês segue fudendo sua própria classe trabalhadora, para que eles possam ser uma das "potências" do mundo econômico. Não há poder de trabalhadores na China (ou qualquer outro assim chamado país "comunista") e, portanto, não há comunismo!
 
Você tem tocado no submundo punk há décadas . Nestes tempos um monte de coisas mudaram. Com a evolução da comunicação, você acha que a relação das pessoas com a música mudou? Como você vê esse processo de mudança dos anos 80 para os anos 90 e a transição para o anos 00? O que podemos esperar sobre o futuro nos anos 10?

Eu acho que toda essa nova geração de crianças "da internet" tem outra relação com a música, diferente da nossa. Hoje em dia, a música é apenas um clique no mouse do seu computador, enquanto na década de 80, tínhamos que ir para lojas de discos para atingir a nossa música. Na cena Punk diy você tinha que escrever para as bandas punks/hc em todo o mundo para obter fitas ou discos. Essa foi a nossa maneira de compartilhar música. Você tinha que colocar um pouco de esforço e energia nela para obter música e toda vez que o carteiro entrega um pacote com fitas ou registros que você ficava muito feliz, ler as cartas e tocar a música sem parar! Mas você sabe que agora eu estou falando como um velho hahaha. Eu não vou dizer que aqueles tempos eram melhores ou qualquer coisa do tipo... mas sim, que havia uma certa dedicação para fazer parte da cena, e talvez que está faltando hoje em dia. Mas, novamente... Vimos um processo a partir da década de 80 à década de 90 em que se as coisas se deram de forma um pouco diferentes, então agora você pode comprar um monte de coisas em shows punks ou encomendar os seus registros nos sites de selos punks. Isso fez com que ficasse também muito mais fácil. Você tinha comunicação com as bandas antes, como escrever-lhes uma carta enviando dinheiro para encomendar a gravação, fanzine etc. Isso se perdeu... e, portanto, também a comunicação diminuiu. Temos também, a introdução do CD, mas pra ser honesto, isso não teve qualquer impacto real na minha vida, porque eu me mantive fiel ao vinil e fitas na maior parte do tempo, especialmente se tratando de registros punk/hardcore diy. De tal forma, eu não sou realmente um especialista sobre as mudanças dentro da indústria da música porque eu sou muito à moda antiga, ainda compro vinil, fitas etc Enfim, com a introdução do computador e da internet, as coisas mudaram drasticamente. Comunicação tornou-se muito mais fácil e assim o fez promover sua banda, registros, fitas, fanzines, shows e eventos e , de certa forma, pode-se dizer que se tornou muito fácil e, portanto, sua relação com a música mudou... Mas ao mesmo tempo eu também posso dizer que por causa da internet entrei em contato novamente com um monte de amigos punks antigos dos tempos das trocas de fitas. Graças à internet também entramos em contato com Menno para que pudéssemos fazer esses shows do LÄRM novamente. E graças a internet pudemos fazer alguns grandes passeios. Então, eu não sou tão sentimental sobre os velhos tempos, abraço os novos tempos também. Vamos enfrentá-lo. Nós podemos fazer esta entrevista graças à internet! A coisa boa é que um grande número de pessoas dentro da cena HC ainda compra vinil e fitas, ainda faz fanzines, ainda mantém selos de gravação em seus quartos e organizam shows em squats ou qualquer outra coisa... Depois de todas essas décadas de mudanças, coisas da raiz do punk nunca mudaram. Esse é o poder da nossa música, eu acho. Portanto, não importa o que o futuro trará, provavelmente ele vai ficar ainda mais digital, mas, haverá sempre esse núcleo de pessoas que ainda querem escutar vinil, ler fanzines impressos, ir a lugares pequenos pra ver uma banda etc. Isso nunca vai mudar e nunca mudou na cena underground diy. Porque à final de contas, você não quer gastar todo seu maldito tempo atrás de um computador, você quer conhecer pessoas de verdade, ter conversas reais, ver bandas ao vivo de verdade, obter registros reais, ler fanzines em papel, apoiar selos e distribuidoras diy... Todas essas mudanças não podem matar isso... Eu acho.

  

Você não acha que a tomada do Estado, numa concepção leninista e gramscista, foi uma experiência desastrosa? Você não acha que, talvez, os anarquistas estivessem certos? A propósito, qual é a sua opinião sobre questões anarquistas?

Em retrospecto, é fácil ser sábio depois da experiência. Porque na concepção do leninismo e Gramscismo teve realmente que trazer uma experiência radical em prática. Não importa o que as pessoas pensam sobre os comunistas e as experiências revolucionárias que ocorreram na Rússia, China, Cuba, Vietnã etc que só poderia ocorrer por causa da concepção leninista. Deve haver uma vanguarda assim como em qualquer atividade criativa um "avant-garde". Um círculo de pessoas mais criativas e eficazes que empurram a realização do socialismo. Comunistas começaram esta experiência e sim, eles falharam, e você pode chamá-la de desastrosa depois... mas, devemos lamentar aqueles lutadores que cometeram um erro e perderam? Os erros do século XX tem que ser aprendidos e transcendidos. O passado realmente explica o presente, particularmente, como várias lutas de classes aconteceram, as escolhas que foram feitas, batalhas foram perdidas e conquistadas, erros desastrosos foram feitos. Fazemos escolhas ao lutar batalhas, guiados por uma visão para o futuro. É humano cometer erros, mas também é humano aprender com os nossos erros. Enquanto os movimentos socialistas do passado e Estados socialistas fizeram realizações para a libertação da humanidade... eles são principalmente realizadores do socialismo totalitário inaceitável. E eu acho que nós sempre fomos muito claros sobre isso... Como disse no início desta entrevista, nunca fomos defensores cegos de qualquer um desses regimes "comunistas". Eu não sou um anti-anarquista... Na verdade, se eu olhar para trás, na história das minhas próprias bandas, eu toquei bastante em benefício de organizações anarquistas/squats/prisioneiros/livrarias/zines etc e também já tocamos para causas comunistas. Muitos de nossos amigos são anarquistas e temos muitos laços com o anarquismo. É claro que quando eu ouvi pela primeira vez Johnny Rotten cantando "Anarchy In The U.K." eu entrei em idéias de anarquia também. Quero dizer que eram praticamente todos anarquistas naqueles tempos iniciais do punk. Porra, eu adorava a parte criativa e energia proveniente da cena anarquista na época. Eu ainda era um membro de uma organização anarquista local, há alguns anos e gostava muito. Mas no final de 1979 eu recuei, porque eu não podia suportar a "nenhuma autoridade a não ser a si mesmo" tipo de atitude. Que, a meu ver, levava a uma certa inatividade. Para lhe dar um exemplo daqueles dias, lembro-me que neonazistas teriam uma reunião e decidimos atrapalhá-la. Antes da manifestação houve uma longa discussão sobre se devíamos mantê-la pacífica ou se devíamos usar a violência ou se chegaríamos a um confronto com a escória nazista. Isso se transformou em um dilema... até que alguém acabou dizendo: "Ok, Vamos pega-los e parar esses nazis". Em seguida, outra pessoa iria gritar: "Quem é você para lançar-se como nosso líder?" E toda uma nova discussão sobre a porra da autoridade iria acontecer. Eu simplesmente não conseguia mais lidar com essa atitude. Além de que na década de 80, comecei a abraçar o Straight Edge, porque eu simplesmente também não conseguia suportar o lado niilista e autodestrutivo de alguns dos punks anarquistas. Quero dizer, eu vi amigos punks anarquistas indo pelo ralo o uso de drogas e/ou se tornarem alcoólatras (ou ambos!). E toda vez que quando você queria falar com eles , eles levantavam que não havia "nenhuma autoridade a não ser a si mesmo" e diziam: "Ninguém pode me dizer como devo viver a minha vida." Mais uma vez, não era a minha atitude e eu não podia lidar com isso, mesma coisa pra meus amigos anarquistas que tomaram esse caminho niilista. Naqueles anos, eu viajei de anarco-comunismo e, em um certo ponto eu percebi, sou um maldito comunista. Mas tendo dito isso, eu sou provavelmente muito anárquico pra ser comunista e também comunista demais para ser um anarquista! E ao lado, que para mim o comunismo não é apenas os suspeitos usuais como Marx , Lenin, Mao etc É também o Redskins, Woody Guthrie, Billy Bragg, Fre Meis, Marinus van der Lubbe, Cajo Brendel, Herman Gorter, Victor Jarra, The Dils, Rondos, Rosa Luxemburgo, The Dicks, Phil Ochs, Pete Seeger etc.

Nos últimos anos, a Europa foi varrida por uma crise política. Grécia, França , Espanha, Holanda etc passam por uma série de problemas sociais. Você pensa que o capitalismo, como Mészáros pensa, esta em uma crise estrutural? Você acha que estamos vivendo em tempos revolucionários?

Vivemos em tempos políticos pesados, extremos, a crise bate forte sobre as pessoas da Europa e parece que não há nenhuma solução rápida para a atual crise econômica... Na verdade, o próprio capitalismo está em crise. Isso pode significar que as pessoas estão mais abertas a idéias revolucionárias com certeza. Mas (há sempre um mas ...) a revolução começa com o indivíduo. Ela começa com uma pessoa que faz um compromisso pessoal de fazer o que é certo. Você não pode transformar alguém em um revolucionário, fazendo-os gritar slogans ou qualquer outra coisa. As pessoas não tem consciência de classe, ainda vivem adorando o dinheiro e outras armadilhas capitalistas, se as pessoas ainda acreditam que os meios de comunicação em massa, em seus patrões, bebida ou drogas vão levar suas vidas longe etc obviamente não tem comprometimento em fazer o que é certo. Revolução não é uma filosofia de merda, é uma atividade! Assim, podemos viver em tempos revolucionários, mas sem compromisso revolucionário, isso não significa nada. Na verdade, você vê que muitas pessoas na Europa viram-se para as mesmas velhas idéias feias de intolerância, racismo, fascismo etc. Vamos culpar os imigrantes, o Islã etc em vez de culpar os capitalistas e seu sistema opressor! Para ser brutalmente honesto eu não posso prever o caminho que a Europa vai traçar... mas pelo que vejo agora em muitos países europeus, as pessoas estão fazendo um balanço para a direita, e isso é ruim , porra!

Você sempre tocou em bandas que levavam questões políticas nas letras . Você acha que hoje em dia a política se tornou secundária no punk?

Depende. eu acredito que há um segmento na cena punk/hc que não é realmente político, mas esse segmento também estava lá no início dos anos 80, 90 e assim por diante. Então, de certa forma, não há muita diferença. Ok, o início dos anos 80 foram tempos duros, com uma guerra fria acontecendo, uma corrida armamentista, era Reagan/Tatcher, "no future", o apartheid, o elevado desemprego, aumento de neo-nazis, déficit habitacional etc. então havia muito motivo para estar zangado, você quase sempre tinha que ser político naqueles dias. Então, novamente os tempos atuais são ruins de novo e eu acho que um monte de bandas ainda têm letras políticas... Pelo menos as bandas que eu conheço. Então, eu não acho que a política virou secundário, embora, você talvez esteja certo ao dizer que as bandas são menos francas estes dias. Porque dificilmente uma banda fala no palco. Eles só querem desempenhar o seu show e é isso. Às vezes eu realmente sinto falta daquelas bandas que falavam.

Para encerrar a entrevista, quais são seus planos pessoais de envolvimento no cenário musical? Pensando em novos projetos/bandas?

Bem , desde que minha saúde me permita... Eu vou continuar a fazer parte da MANLIFTINGBANNER enquanto ela durar. Na verdade, a MLB está trabalhando em novas músicas agora, então em 2013 haverá um novo lançamento e provavelmente iremos fazer alguns shows. Há muito se fala sobre uma turnê no Brasil em 2014... Nós podemos gravar nosso último EP com SEEIN RED, vamos apenas esperar Jos se recuperar do problema nos ouvidos. Eu e meu irmão nunca paramos de fazer barulho no quarto de ensaio hahaha! Pode ser que saia alguma banda disso ou até mesmo um projeto pra gravar só um disco...é esperar para ver.

   

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