sexta-feira, 2 de setembro de 2016

ERUPÇÃO! As origens do barulho no Bra$il. (Parte I)

    





Por: Michel Carvalho


Brasil, início da década de 80, últimos anos de ditadura militar. O país está completamente afundado em um panorama de crise, desemprego, repressão policial, tortura, perseguições políticas, massacres indígenas, censura, devastação da floresta amazônica, corrupção, fome no Nordeste... Nada muito distante de nossa realidade atual, talvez, hoje isso aconteça de forma velada, ou seria naturalizada mesmo? Enfim. Nesse contexto de constantes conflitos políticos e insatisfação geral, jovens a margem dessa sociedade decadente que não se enquadravam ao modelo de vida proposto dentro do regime militar encontraram no movimento punk uma oportunidade de se expressar política e artisticamente. Foi um momento de ruptura com paradigmas comportamentais e musicais da época, mas essa história todo mundo já está cansado de saber. A chamada segunda onda punk havia começado anos antes, no final dos anos 70. A essa altura do campeonato já existiam bastante bandas acelerando a velocidade de suas músicas e radicalizando ainda mais suas posturas e letras/discursos de protesto político/social. 

Graças a cultura dos tape traders (trocadores de fita k7) o hardcore já estava bastante difundido pelos buracos suburbanos do mundo. Quando o movimento punk estoura aqui no terceiro mundo, com seu auge no ano de 1982 - ano em que acontece o lendário festival "O começo do fim do mundo" - percebe-se que já existia bastante influencia do hardcore nas bandas punks brasileiras - apesar do termo ser motivo de polêmica na cena local - a exemplo do Ulster - banda em que o Luiz tocou guitarra antes de fazer o vocal na Brigada do ódio - que já apresentava uma agressividade sonora e estética absurda, tocavam sempre com capuzes negros inspirados nos terroristas do IRA (?) . Reza a lenda que a primeira banda a afirmar que seu som era hardcore foi o Ratos de Porão em 83, no ano seguinte eles gravariam o primeiro disco individual de uma banda de hardcore da América Latrina'do mundo, o qual vocês já sabem muito bem o nome.

Ulster.

É aquela velha história, a industria musical já tinha se servido do movimento punk e tirado o máximo de dinheiro possível do que estava acontecendo. Com o hardcore aconteceu a mesma coisa. Alias, essa industria enxerga o "rock" como uma grande fonte de lucro, tendo os jovens como seu principal público alvo desde a década de 50. Mas, porém, todavia, Punk não é rock e hardcore não é música (lembra?). A partir de um determinado momento, não sei se por uma histeria coletiva ou propositalmente posicionando-se contra os mercenários da industria musical, várias bandas de todo o globo passam a extremar ainda mais suas, até então, músicas ao ponto de ficaram incomerciáveis e, inclusive, com a pretensão de não querer mais fazer música e sim, barulho. 

Querendo ser cada dia mais sujos e agressivos aparecem mundo afora várias bandas proto-metranca tipo o United Mutation, banda proto-grind Norte Americana que já havia gravado em tape no ano de 81 um som similar ao que viria a ser chamado de grindcore posteriormente. Ainda no território do Tio Sam saem também os futuros "traidores" do DRI, que em 83 colocou 22 sons ultra rápidos no seu primeiro trampo e o Cyanamid, que gravou o tosco EP "Stop the World" em 84, tinha o Asocial que já fazia som rápido em meados de 82 na Suécia, o Kuolema fazia um puta barulho em 83 na Finlândia, o Hellsaw (pré-Agathocles) na Bélgica e mais um monte de bandas que a memória e a preguiça me impedem de escrever aqui. Dentre todas essas bandas, se destacam também os holandeses do Lärm que faziam um som bastante rápido, desafinado e politizado já abordando em suas letras temas como libertação animal, discurso anti drogas e que, até onde eu sei, em 84 já estavam em campanha pela destruição musical e foram o primeiro grupo a colocar 28 sons de um lado de um LP no split com a banda Stanx. Mas quem já ouviu o Brigada do Ódio, que em 85, também colocou 28 sons em seu lado no split LP com o Olho Seco, sabe que sua sonoridade é muito mais caótica e minimalista se assemelhando mais a estrutura sonora que viria a se chamar grindcore alguns anos depois. No entanto, o propósito aqui não é reivindicar a origem de tudo isso a nível mundial - tentaram fazer isso com o punk rock e foram parar no Peru com uma banda garage surf - e sim, tentar compreender em que contexto essas bandas barulhentas surgiram por aqui, até por que, a gente tem o Damião Experiença pra calar a boca de qualquer gringo.

Como dizia anteriormente, no Brasil não foi diferente. Algumas bandas queriam levar a música punk a seu limite, mesmo sem a existência de referencias "grind" propriamente ditas - termo que só viria a ser criado em 1987 pelo baterista Mick Harris do Napalm Death que já denotava influencia também de metal em seu som - por aqui tudo era muito espontâneo e, paralelamente, haviam bandas tentando deixar seu som mais extremo a todo custo como a banda SP Caos por exemplo, que em 84 já tinha gravado em fita coisas como a música "sistema" com apenas 8 segundos de duração além do próprio Brigada do Ódio, que por fazer um som tão extremo e à frente de seu tempo acabou passando despercebido na época, ninguém entendeu o que eles se propunham a fazer, só recebendo o devido reconhecimento anos depois quando, finalmente, decidiram fazer um levantamento sobre as origens dessas bandas barulhentas. Muitas vezes a incompreensão é o preço que se paga quando se está na vanguarda. Reza outra lenda - existem várias lendas nesse meio - que o Luiz tocava também em uma banda chamada ETC (por favor, não confundir com a banda noisecore sergipana) antes do Brigada e que o som dessa banda seria ainda mais extremo, como me disse João Gordo:  "Antes do Brigada do Ódio o Luiz tinha uma gravação onde ele tocava tudo sozinho, chamava-se ETC. Foi na mesma época do Ulster. Eu fiquei chocado com o Brigada do Ódio, só entendemos o que estava acontecendo anos depois". Reconheçamos que esses caras criaram o que tempos depois seria batizado de grindcore pelos ingleses. Dizem que quando o Napalm veio ao Brasil pela primeira vez nos anos 90, o Shane ostentava um adesivo do BDO colado em seu baixo e isso teria chamado muita atenção para a banda, que estava inativa há anos. Hoje, discos como o split com o Olho Seco são disputados a tapas por aficionados em música ruidosa. Entrei em contato com o Wilson (ex-infratores, ex-olho seco e eterno baixista da Brigada) afim de esclarecer algumas questões.

Infratores (pré-Brigada do ódio)

Fale um pouco sobre a banda Infratores. O som da banda já era extremo como Brigada do ódio? 

Wilson: Não era. Os irmãos Sérgio e Magrão fizeram os Infratores com aquela pegada de Discharge, bandas finlandesas. Quando eu entrei o batera era o Carlão e fazíamos um HC mais nessa linha mesmo, mas já gostávamos de manter uma batida acelerada. O Carlão era marceneiro e sofreu um acidente trabalhando, perdeu três dedos na mão direita. Parou de tocar para recuperar-se. Aí ficamos ensaiando um tempo com o Maurício, que hoje é um tatuador de renome. Nossos ensaios sempre foram na funilaria que os irmãos trabalhavam em Mauá. Quem começou a ensaiar lá foram o Mao e o Mauro. Eles fundaram os Garotos Podres lá. O Maurício também tocava bateria para eles, mas o negócio do Maurício não era banda. Ele curtia, mas já estava com outras ideias. Os garotos dividiram espaço conosco por um ano, aproximadamente. Nós ficamos novamente sem baterista fixo até entrar o Amauri. Ele tocou conosco um ano, aproximadamente. Depois mudou para interior, perdemos contato e só retomamos contato recentemente pelo facebook. Outro Mauro, o primeiro vocalista do Ulster, tocou bateria para nós, e acho que aí temos uma referência legal. Sempre tivemos muita proximidade com os caras do Ulster, tanto nós quanto eles curtíamos sons velozes, HC americano tipo Gang Green, Teen Idles… Sempre gostei de Circle Jerks… sempre achei muito interessante esse lance de músicas de 40 segundos, um minuto. Também gostava de sons estranhos como Sekunda, coisas experimentais como Disorder, Chaos UK.

                        

Em que contexto nasce o Brigada do ódio?

O BDO nasce nesse contexto de saída de bateristas. O Sérgio, para mim, sempre foi o cara com mais aptidão musical de nós. Ele tocava bem guitarra e baixo, cantava bem, construía as músicas… Mas na bateria ele era foda. Tocava rápido e tinha aquele lance meio Keith Moon, de acompanhar a música com a bateria. E ele usava uma batera de 07 peças mesmo, nada de dois bumbos. Eu assumi o vocal e continuei no baixo e o Magrão na guitarra. Nós convivíamos o contexto do punk no ABC paulista. E naqueles dias o pessoal de lá não curtia muito HC, um ou outro, apenas. O HC estava acontecendo mais entre as bandas de SP, o RDP estava iniciando a fase com o João Gordo, o Psycoze estava com o Luizão na formação e com uma pegada veloz, que durou pouco. O Luizão foi para o Olho Seco e sua influência deu uma acelerada no som dos caras. Aliás, não apenas ele, mas a mudança de formação permitiu que o Olho Seco redefinisse o seu som. Nós estávamos ensaiando em trio e não iríamos mais nos chamar infratores. Mas não tínhamos pensado em nome. Só ensaiávamos. Regularmente o Vladi e o Mauro do Ulster iam aos nossos ensaios. E acho que comentaram com o Luiz sobre o som que estávamos tirando. Nesse momento estávamos com um som acelerado e cheio, estávamos em um momento de mudanças e a bateria do Sérgio tornou o som muito rápido. Bom, o Luiz foi ver um ensaio nosso. Tenho que destacar que o Luizão foi uma figura que sempre procurou fazer um som rápido, pesado. E ele tinha muito mais experiência com bandas do que nós. Nossa banda, como te disse, tinha no Sérgio um bom músico e sem preconceito. O Magrão também era um competente guitarra. Eu era muito ruim musicalmente, mas conceitualmente estava estruturando a banda. Sabe, fazendo a “leitura” do momento, do HC, das bandas que estavam surgindo… Acho que o Luiz, pela maior experiência, soube possibilitar este diálogo, esta união entre o conceito e a música. Porque o Luiz era um cara inteligente, determinado a fugir de padrões e  tentar inovar sempre. Quando ele veio no ensaio, ficou admirado principalmente com o Sérgio tocando. Com a franqueza que a amizade permitia, ele comentou que o som estava uma porrada, mas podia acertar algumas coisas. E perguntou se ele podia cantar pra gente. Para mim, seria uma boa. Nunca me senti bem cantando, foi uma questão de necessidade. E o Luiz tinha boas ideias nesse sentido e poderia implementar um vocal que sairia do estilo que todas as bandas vinham fazendo, sabe? O Luiz achou por bem cantar com mais clareza e se deter mais em cada sílaba… um vocal gritado, agressivo mas bem compassado. A ideia dele era preencher as músicas. Daí surgiu a necessidade de fazermos letras curtas para se encaixarem nessa forma de cantar. E eu gosto de escrever até hoje, gosto de poesia e achei legal o desafio de estruturar uma nova dinâmica de letras, adequar o texto ao som.

O que levou vocês a fazer um som tão extremo e radical nos anos 80?

Resolvemos duas coisas com a reformulação do grupo: ser a banda mais rápida e suja do mundo (pretensão, né?) e gravar um disco. A ideia de gravar surgiu por um fato simples: Ninguém estava interessado em um som como o nosso naquele momento. Nem o pessoal do ABC nem de SP. Então achamos que, gravando um disco teríamos a chance de atingir pessoas que gostassem do que estávamos fazendo, mesmo que estivessem distantes. Estávamos sintonizados com coisas como DRI que havia gravado o Dirty Rotten Imbecilis com músicas de 11, 15, 20 segundos, o Chaos UK que havia quebrado o tempo de bateria e acelerado suas músicas no LP Short Sharp Shock, o primeiro Husker Du, que trouxe um vocal muito similar ao que o Luizão procurava fazer. Então sabíamos que existiam pessoas buscando extremar o som a partir do que as bandas HC estavam tocando. Nós buscamos manter uma bateria cheia, rodando muito, utilizar um vocal agressivo e gritado, com frases curtas que passasse a impressão de não parar nunca, uma montanha russa que não parasse de subir. Pensamos em usar uma palhetada rápida, e mudança de notas aceleradas. Mantivemos a simplicidade de poucas notas, mas aceleramos muito o tempo. E ensaiamos muito. Buscamos sincronizar os instrumentos em um som extremamente rápido. Foi algo difícil. Lembro que, quando passamos o som no dia da gravação o Renato Martins se surpreendeu quando notou o quanto estávamos ensaiados. Foi a forma que encontramos de nos fazer ouvir em outros lugares fora do Brasil. Sabíamos que o bom nome do Olho Seco nos levaria ao público de outros países, e como eu disse, tínhamos noção que outras pessoas estavam procurando fazer um som mais rápido e mais pesado que o HC que vinha sendo tocado. Só que eu nunca imaginei que após mais de 30 anos nosso som ainda fosse ouvido. Estar nesse momento respondendo sobre o BDO, com mais de 50 anos é algo que nunca imaginei. Me sinto grato pelas pessoas que ainda nos ouvem e tentam entender o que fizemos. Fico triste apenas pelo Luiz não poder partilhar disso. Ele era um bom amigo, boa pessoa. Aliás, a primeira formação nossa foi muito interessante. Eu passava muito tempo com os irmãos Sérgio e Magrão. Acho que ficava mais tempo na casa deles que na minha. Os pais deles e os outros irmãos eram muito bacanas. Imagine que durante um tempo ficamos ensaiando na casa deles. Na casa mesmo, no canto da sala. Já imaginou no domingo a família na sala vendo Silvio Santos e o BDO ensaiando no canto? Ah, sim, nesse processo resolvemos batizar a banda. Fizemos uma lista grande, e cruzando alguns nomes chegamos em BDO. Nada muito especial. Só achamos que brigada dava o tom de grupo, união.

Encarte do split LP com o Olho Seco lançado em 1985.

Vocês tinham contato com outras bandas que faziam um som similar ao de vocês?

Como o nosso não….estávamos meio isolados de qualquer cena. É difícil para explicar hoje, mas após o auge do Punk em 1982, a coisa entrou em uma cena de brigas que afastou os shows de SP e ABC. Foi uma época que o Rédson e o Cólera abriram espaço para shows no interior e outros estados...muitas bandas foram fazer este circuito de interior de SP. Nós estávamos isolados mesmo.  

O brigada do ódio era mal visto ("traidores") pelos punks da época por conta de seu radicalismo sonoro?

Não. Como disse, mal sabiam o que estávamos fazendo. Um ou outro que gostava vinha nos ensaios. Só.

Como e em que ano foram gravados os sons pro split com o Olho Seco de 85? Houve repercussão sobre o som do Brigada na época?

Conseguimos juntar dinheiro para gravar alguma coisa em estúdio. E o Fabião estava querendo lançar algumas coisas de estúdio e ao vivo do Olho Seco, mas era um material que não dava um LP. Sabendo disso, o Luiz fez a proposta para o Fábio de fazer um split. E aqui eu ressalto que só o Fábio para ter esta generosidade. Ele nunca tinha ouvido a BDO. Ele conhecia eu e o Luiz. E confiou na gente. Só estabeleceu um prazo. Então pegamos o dinheiro que tínhamos, vimos o que dava pra fazer e marcamos uma sessão do estúdio. Isso era em 1983/84. Nós só tínhamos dinheiro para 08 horas de estúdio. Um estúdio de 08 canais que gravava sertanejo e forró no centro antigo de SP, acho que o mesmo do Grito Suburbano. Aqui também paro para uma lembrança e alguns agradecimentos. Nenhum de nós sabia nada de estúdio. O Rédson e o Renato Filho, além do Fábio, claro, passaram o dia lá, ajudando, dando orientações, disponibilizando até instrumentos caso fosse necessário. Passaram um domingo dando uma força sem nenhum interesse, só pela camaradagem mesmo. A arte da capa e do encarte foram feitas pelo Mauro dos Garotos Podres. Como nosso dinheiro era contado para o estúdio, o Mauro nos presenteou com a arte. Outra ação de desprendimento que era comum na cena da época e que nos ajudou. Acho importante destacar essas pessoas e o que elas fizeram sem nenhum interesse, e com muito boa vontade. É algo pelo qual sou muito grato. Lembro que o split saiu em 1985. A repercussão foi péssima e confirmou nossa impressão. A opinião geral foi que estragamos o split, que o lado do BDO era inaudível. Acho que perdemos muito no processo de gravar e prensar o LP, mas de qualquer forma o pessoal não gostou nem um pouco do nosso som.

O brigada chegou a se apresentar ao vivo nos anos 80?

Não nos apresentamos. Como disse, ninguém curtia aquilo. Um ou outro que vinha em nossos ensaios, somente isso.

Olho Seco com Luiz (Brigada do Ódio) na guitarra na fase do EP "Fome Nuclear". 198?

Em 1987 o Napalm Death lançava o famigerado "Scum" parindo o termo grindcore no mundo. Nesse período da segunda metade dos anos 80 algumas bandas seguem fazendo um som com essa estrutura sonora como o Agathocles, Fear of God, Sore Throat, Violent Headache, Crawl Noise, S.O.B. etc. Do lado de cá, ninguém fazia muita ideia do que estava acontecendo. O Olho Seco - agora com o Luiz (Brigada do Ódio) substituindo o finado Redson na guitarra - passa por sua fase mais radical. "Ninguém gostou... a gente falava que o Luiz tinha estragado o Olho Seco... A gente gostava do botas, fuzis, capacetes." comenta João Gordo, que me conta um fato curioso. Além de tocar no Olho Seco, o Luiz também radicalizou a sonoridade do Psykóze durante um curto período da banda como conta JG "O Luiz entrou pro Psykóze e fizeram umas 12 músicas que nunca foram registradas. Tocaram em Salvador e Rio Claro com essa formação de 1983... Luiz na guitarra, Morto no vocal, Moreno no baixo e Bitão na bateria. o Moreno é o mesmo do Lixomania que gravou o compacto Violência e Sobrevivência. Era tipo um grind. o Bitão era muito ruim mas naquela fase estava perfeito. Tenho 3 sons dessa época na minha memória, talvez um dia o RDP grave" completa. Paralelamente surgia uma cena de bandas mais "noise" em Belo Horizonte - MG. Procurei o Ameba, vocalista da lendária banda mineira Atack Epiléptico pra falar um pouco sobre o que estava rolando por lá naquela época "Aqui em BH no início dos anos 80 as bandas eram muito Noise/HC, já em Sampa, o Punk Rock era predominante. Em juiz de Fora tínhamos o 'Inimigos do Ritmo' que também já fazia um noise ensurdecedor.". Além do Inimigos do Ritmo (ótimo nome!) e do Atack Epiléptico, existiam também outras bandas fazendo "barulhocore" por aqueles lados como o Offensor e a estranhíssima IDR que fazia um som bastante atípico, ambas começaram em 86. 

Lado A  gravado em 87 com Fábio no vocal.
 Lado B gravado em 88 já com o Luiz no vocal. 

No ano de 1988 o Olho Seco lança o compacto "Fome Nuclear" e o Atack Epiléptico lança o split LP com a banda Offensor via Cogumelo Records. Tudo bem que em 88 o Napalm já havia lançado o FETO, um trampo com um conceito estético mais sólido e lapidado em comparação com o que era feito aqui, que, na minha humilde opinião, era igualmente extremo - ou até mais - cada um de seu jeito. A diferença é que aqui no Brasil, além da precariedade dos equipamentos, as bandas tocavam de uma forma imunda e bastante característica. Ritmos (ou anti-ritmos) desgovernados de bateria - os futuros 'blast beats' - vocais desesperados e riffs de guitarra e baixo extremamente rápidos e incompreensíveis, um verdadeiro caos sonoro. Cassiano Ricardo, baixista e vocalista da banda noisecore Industrial Holocaust relembra um pouco dessa época conosco "Acompanhei o lançamento do ep "Fome Nuclear" em 88 e principalmente do LP "Olho por Olho" do Olho seco em 89. Acho um disco excelente. Lembro que na época não teve uma repercussão muito positiva. Muita gente torceu e torce o nariz até hoje para esses discos grindnoisecore, pois esperavam algo mais hardcore. Na época não vi ninguém relacionar diretamente  este disco ao grindcore. É algo que veio posteriormente, não era algo comum como hoje. O grindcore era algo realmente underground. Lembro que falavam que era um hardcore mais rápido e agressivo. O Napalm Death já tinha lançado disco, mas era algo bem raro por aqui. Só com o lançamento nacional do LP Scum que ficou mais conhecido e na sequência vieram tocar aqui o que fortaleceu muito o movimento.". Ao contrário do Brigada, que não chegou a se apresentar ao vivo nos anos 80 - Somente décadas depois - O Atack Epiléptico e o Olho Seco apresentaram seu som vanguardista a um público, digamos, desavisado. "O show da fase Fome Nuclear no Ácido Plastico em 85/86 foi um pesadelo noise grind muito avante do seu tempo onde ninguém do publico entendeu nada... Todos ficaram chocados" relembra João Gordo. Já no final da década aparecem bandas barulhentas pelos quatro cantos do Brasil como uma epidemia, tinha o Morbideath de 88 e a banda, até então Alagoana, Putrefação Humana de 89 por exemplo. Mas isso já é assunto pra segunda parte. Por hora, vamos voltar ao bate papo com o gente finíssima Wilson.

  
Olho Seco ao vivo na fase do EP Fome Nuclear.







Como se deu essa espécie de transição da Brigada pro Olho Seco? Em 87 o Fábio também já tinha vontade de fazer um som mais extremo ou recebeu influência sua e do Luiz na época do Fome Nuclear? O que levou o Fábio a deixar a banda um tempo após esse lançamento? 

Não foi bem uma transição de banda. Lembro que o Luíz estava no Olho quando entrou pro BDO. O Olho estava um pouco parado, sem lugar para ensaiar. A saída do Redson do Olho e a entrada do Luíz já trouxeram mudanças. Quem os viu tocando sabe que eram extremamente diferentes como guitarristas. O Luiz sempre buscou um som mais porrada, mais veloz. E no momento que ele entra no Olho, o Val também está aberto para acelerar o som. A Clenira e o Crispim, irmãos do Val estavam muito envolvidos com o HC, principalmente as bandas norte americanas. Eles editavam o zine 1999, que abordava só banda porrada da época. E o Val havia deixado o Cólera para se dedicar ao Olho somente. Um tempo depois ele saiu e o Alexandre entrou na banda como baixista. Eu fui em alguns ensaios com esta formação. Era espetacular. Não sei bem o que ocorreu, mas após a gravação do Contra Ataque o Fábio decidiu deixar a banda. Lembro que o Fábio estava a frente do selo New Face e as coisas não estavam fáceis. Infelizmente, para toda a cena o Fabião sempre trabalhou muito e de forma extremamente ética com os selos e com a loja, mas, os cenários econômicos sempre impuseram grandes dificuldades para ele. Acho até natural que em algum momento ele ficasse mesmo de saco cheio e quisesse se isolar. Mas o que eu sei é que o Alexandre estava fora da banda também, mas o Sartana não queria deixar o Olho acabar. O Luiz me chamou e perguntou se eu queria tentar um trio com ele nos vocais. Topei, achei uma oportunidade de seguir adiante com algumas ideias. Note que mantivemos o mesmo estilo de vocal do BDO, tanto que as letras eram curtas também. Mas pensamos muito para que o som não ficasse soando como uma releitura do BDO. Algo que diferenciou o som foi a guitarra e a batera, mas conseguimos manter aquele DNA de barulho.

Muito pouco se fala sobre o disco "Olho por Olho" de 1989, na minha opinião, esse disco é o melhor que o Olho Seco já gravou. Como foi o processo de composição e gravação desse disco? O disco teve uma repercussão positiva na época do lançamento?

O Olho por olho tem uma vantagem em relação aos demais discos do Olho Seco: Ele foi pensado como um LP mesmo. A discografia do Olho Seco não conta com isso. A banda participou de coletâneas, fez um compacto e utilizou as gravações para este compacto para lançar um LP, fez um lançamento de músicas ao vivo. Olho por Olho foi o primeiro álbum exclusivamente do Olho, e foi pensado conceitualmente. Claro que os fãs do Olho não gostam do álbum e eu entendo isso. O Fábio estar fora da banda tem um peso grande e a mudança radical feita no som sugerem, como alguns disseram, que havíamos nos apropriado do nome mas que a banda era outra. Discordo. O próprio Fábio estava no processo de mudança da sonoridade do Olho, mas o público não acompanhou isso. Então, quando chegamos com um disco sem o Fábio e com um som muito diferente, obviamente os apreciadores do Olho não gostaram. Mas isso era um risco calculado..rs. Sabíamos pela experiência com o BDO que esta radicalização sonora não agradava muito. Aliás, sabíamos tanto sobre isso que a música VENCER fala sobre esta questão. Nela escrevi que somos rebeldes e odiamos o passado. Significava romper com o que já estava feito. E romper não é virar as costas, achar que foi algo pior que o atual ou melhor. Romper é simplesmente constatar o óbvio: o que está feito, está feito. Vamos ficar com isso ou vamos nos arriscar a buscar novas possibilidades? Nosso entendimento é que deveríamos trilhar novos caminhos. Apenas isso. Sobre a gravação, foi um processo de escrever e compor. Quisemos mostrar algo relacionado conosco, uma passagem de depressão para fúria. Acho que as músicas retratam isso. Vencer e regras tentam, como eu disse, mostrar a ruptura. Sintomas dementes vem a seguir e retrata a depressão, a tristeza sentida na carne. Erupção é a explosão de ira que tenta ser contida, e os canibais retratam a fúria destruidora, que é reforçada em Desintegração, Olho por Olho, Besta Humana e Vai tomar. Pó em Ruína tenta retratar o vazio que fica após a ira e devastação. Tentamos expor nosso desprezo pelo que está estabelecido, pelo que é consenso, e mostrar a vontade de destruir tudo em uma fúria renovadora. O que nos inspirou nesta elaboração foi o poeta Augusto dos Anjos e o filósofo Schopenhauer, que entendiam que o aniquilamento da vontade própria seria a única saída para a existência. Então procuramos elaborar um conceito de ruptura, que fosse contra o que se esperava do Olho, que seria a continuidade. As exceções nesse roteiro são Fome Nuclear e Johnny Black , que eu acho uma boa música mas de letra mal compreendida. Alguns interpretam ela como uma música que fala de um racismo as avessas e não é nada disso. Ela somente denuncia que os poderosos nunca aceitaram uma mudança real. O personagem Johnny Black e alvo da vingança quando chega ao poder. Não é ele quem se vinga e sim os que não suportam ver mulheres, trabalhadores, negros, gays ou lésbicas empoderados.

Wilson tocando com o Olho Seco no Dama Xoc em 1989.

Como se deu o contato com o selo Cogumelo Records? Já havia um interesse do selo por bandas punks mais extremas? lembro-me que em 1988 a cogumelo já havia lançado o split do Atack Epiléptico com o Offensor.

Pela experiência que tivemos com o BDO entendemos que seria importante gravar, registrar aquela fase. Mas eu, o Luiz e o Sartana estávamos sem grana, ganhando pouco. Eu havia acabado de perder um pequeno sebo de Lps com a crise do plano cruzado, o Luíz estava desempregado e o Sartana sempre teve muita responsa em por dinheiro na casa dele. Ele era o arrimo de família. Então fizemos uma gravação de duas músicas – acho que sintomas dementes e vencer – e utilizamos as sobras do Olho Seco gravadas para o Ataque Sonoro e fizemos o compacto fome nuclear. 500 cópias, eu acho. O Ratos havia acabado de lançar pela Cogumelo também e na época era uma boa possibilidade de registro. Peguei esse compacto, tomei um ônibus para BH, fui na cogumelo conversar com o João. Ele estava fora daquele pique de SP e achava que o HC punk e o Metal deveriam se aproximar. Não sei dizer se ele olhava isso como empresário ou musicalmente. Sinceramente não o conheci tanto. Só posso dizer que ele se interessou e marcamos o estúdio para 21 até 24 de agosto de 1989. Lembro bem porque no dia que chegamos soubemos que o Raul Seixas tinha falecido. Na cidade se falava muito disso.

O que os motivou a retornar com o Brigada e gravar um ep em 2002? Com que formação a banda gravou esse ep?

Eu acho, até hoje, que o BDO ficou com algumas coisas mal resolvidas, ou mal acabadas. O Magrão também pensava assim. E acho que ainda pensa. Ele conversou comigo e resolvemos retornar. Achamos que o Vladi, do Ulster, por ter acompanhado a gente com maior proximidade, por ser a grande pessoa que é, seria um bom cara para cantar. Felizmente ele topou! O Sérgio não poderia tocar por questões pessoais. Como eu já havia feito som com o Sartana no Olho Seco e como ele também me conhecia e tínhamos afinidades musicais, chamá-lo foi um caminho natural. E queríamos fazer um som. Tocamos duas vezes em São Bernardo e uma em Mauá. Produzimos algumas músicas e gravamos naquele compacto preto. O Maurício, aquele que tocou bateria conosco nos Infratores, fez a capa. Nessa época o Umberto, outro tatuador e amigo, fez a arte para o site do BDO que o Fábio a elaborou. São outras pessoas a quem sou muito grato pelo apoio. Mas nesse período o Sartana acabou saindo por conta de questões pessoais. Ele estava com filha pequena, tinha que se desdobrar no trabalho. Enfim, coisas da vida. Nós conhecíamos o Panda, batera do Oligarquia. Convidamos ele para tocar conosco e ele aceitou. O Panda é um cara excepcional, bom músico e excelente pessoa. Tenho saudades de nossos papos, dele e do Germano. Sabe, essas pessoas que vou citando são muito importantes para o que foi o BDO, tanto musicalmente quanto conceitualmente. Acho que o BDO teve três excelentes bateristas: Sérgio, Sartana e Panda. Cada um com sua forma de tocar, suas convicções, mas os três ótimos mesmo. Digo mesmo que a base do som do BDO sempre foi a bateria.

Existe a possibilidade do Brigada se reunir mais uma vez pra gravar algo ou se apresentar ao vivo?

Sendo sincero, temos um material gravado há uns dez anos com o Panda na bateria e o Vladi nos vocais. Não conseguimos fazer a mixagem e lançar por falta de dinheiro mesmo. Estamos empenhados em mixar e soltar na net. Mas como estou morando em MG está um pouco difícil articular isso. Mas vamos lançar sim. Tocar não sei. Qual o motivo? Se pudéssemos fazer outras coisas interessantes valeria a pena. Mas voltar a tocar apenas por nostalgia … não sei se vale a pena. Acho pouco. Também tem outro lance...não evoluímos musicalmente, ficamos muito tempo parados.  Não acredito que traríamos algo de interessante com nosso retorno. Acho que é preciso ter honestidade, né? 

     

Continua...
  



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