O grindcore é uma dissidência mestiça do punk e do heavy metal, em suas vertentes mais rápidas e pesadas, surgidas nos anos 80. A brutal cacofonia marca sua postura anticomercial, e as perspectivas libertárias de suas capas e letras expõe a radicalidade de seu posicionamento político. A intenção deste texto é promover um diálogo entre a ecologia, a educação e o grindcore, partindo da concepção desse último como um criador de perspectivas ambientais e formativas menores e libertárias, não alinhadas às perspectivas hegemônicas e institucionalizadas. Os conceitos de infâmia e “saberes insurrectos” sugeridos por Michel Foucault possibilitam potencializar o grindcore como agente de construção de outras verdades e histórias.
Por Rodrigo Barchi
Dissidências...
Há uma história da educação ambiental. E há histórias outras, de educações ambientais outras. A primeira é contada nos documentos e tratados assinados ao final das grandes conferências, reuniões e congressos internacionais da educação ambiental, realizadas sob a tutela das Nações Unidas. E também está registrada nos programas, políticas e cartilhas institucionais, as quais são produzidas pelas secretarias de educação e/ou de meio ambiente dos governos nacionais, estaduais e municipais, servindo de referência “segura e inquestionável” para as ações públicas em âmbito estatal e também para a produção de conhecimento em educação ambiental.
Por sua vez, é possível pensarmos que as perspectivas ecologistas estão presentes em outros meios que não somente aqueles que foram institucionalizados, ou mesmo que buscam terem reconhecidos seus discursos para serem inclusos entre as noções devidamente legitimadas como educação ambiental, sendo enquadradas e cristalizadas nos/pelos padrões científicos e burocráticos vigentes.
Essas outras ecologias estão presentes nos discursos e nas ações de grupos que não estão preocupados com a sua aceitação perante as esferas e organizações que legitimam oficialmente o que é ou não ecologia. São manifestações de pessoas e coletivos que buscam fugir aos padrões de conduta impostos por uma determinada ação normalizadora, a qual se mostra cada vez mais impositiva das noções homogeneizantes daquilo que possa ser entendido como ciência, educação e ação política.
Ao recusarem sua legitimação pelas esferas do poder institucionalizado, e manterem sua postura radical perante as ações predatórias do capital associado aos Estados nacionais, é possível, se não classificarmos – para não cairmos na armadilha taxonômica e universalizante de algumas práticas científicas intransigentes nas ciências humanas – mas potencializarmos essas ecologias como menores. As quais, por estarem em uma condição de militância e dissidência perante o caráter oficial das ecologias, não compartilham e nem são cúmplices das perspectivas ecológicas presentes nos documentos oficiais, que podem ser chamadas de maiores.
Esse texto, portanto, tem a intenção de trazer o discurso ecologista presente em um movimento (anti) musical chamado grindcore, surgido nos anos 80 e que se caracteriza tanto pela grande velocidade quanto pelo alto ruído de suas composições. Surgido na esfera dos movimentos punks anarquistas, e também das vertentes do metal, as letras das (anti) músicas e as imagens de capas, o estilo apresenta perspectivas muito radicais no que diz respeito à política, à sociedade, à ciência e à ecologia. E são justamente as ecologias do grindcore que esse ensaio pretende abordar, enfocando, principalmente, o seu potencial educador e formativo.
Como escopo teórico, a proposta é trazer o debate realizado por Foucault, a partir da influência de Nietzsche em seu pensamento e obra, sobre a genealogia e a construção do saber, de forma que seja possível, a partir do conceito de “saberes insurrectos” e das verdades construídas pelas pessoas infames, desvelar-se um pouco mais sobre as ecologias e educações menores construídas por esses grupos menores e/ou marginais. Quando sugiro a infâmia, é no sentido de trazer à tona os registros de pessoas e/ou grupos que não têm suas histórias, vidas e perspectivas inclusas no que é entendido, pelos discursos oficialistas e maiores, como “A história da Educação Ambiental”.
Cabe ainda ressaltar que o esforço aqui não é buscar indícios daquilo que se chama por ecologia – ecologia maior – nas manifestações que exponho, apesar de elas também existirem. Assim como na esfera da educação. Mas, como sugere Viveiros de Castro (2007), na pesquisa antropológica, a proposta é potencializar o pensamento sobre essas multiplicidades como força menor, e buscar nessa perspectiva suas formas educativas e ecológicas. Longe de agregar as perspectivas ecológicas à “multiplicidade de concepções ecologistas” e pensá-las também como mais um integrante da ecologia maior, a intenção é discutir essas ecologias e educações menores como sistemas próprios, criadores de suas próprias perspectivas, que põem para correr as universalidades totalizantes para estabelecer suas medidas.
As verdades outras
A influência do pensamento nietzscheano no trabalho de Michel Foucault é marcada constante e intensamente na perspectiva genealógica dos textos e pesquisas desenvolvidas a respeito do poder. Foucault, inclusive, adota o termo genealogia para fazer as investigações relativas ao exercício do poder na construção dos sujeitos.
No prefácio de Genealogia da Moral, Nietzsche afirma ser necessário que o valor dos valores morais seja colocado em questão (NIETZSCHE, 2009, p. 9). Recusando a noção na qual a moral sempre esteve à margem de qualquer questionamento, sugere o alemão uma análise detalhada. Essa nova exigência se faz presente devido, justamente, ao fato de que, se não há uma origem, uma fundação e um princípio das coisas e do mundo, não há também um princípio metafísico impositivo das condutas dos seres humanos. O filósofo alemão alega que é necessário perguntar-se sobre o que é e como esses valores foram construídos, e como o bem e o mal se tornaram sinônimos de útil e nocivo.
Foucault afirma que Nietzsche, ao buscar o momento (ou os momentos) em que, para um povo ou nação, as “almas” se unificam, e o “eu” se inventa como uma unidade, é possível identificar uma série de acontecimentos e acidentes, que tornam possível fazer da origem – ao ser agitada – um aglomerado heterogêneo, cuja fragmentação destrói toda a unidade da fundação:
"A proveniência também permite reencontrar, sob o aspecto único de uma característica de um conceito a proliferação dos acontecimentos através dos quais (graças aos quais, contra os quais) eles se formaram. A genealogia não pretende recuar no tempo para estabelecer uma grande continuidade para além da dispersão do esquecimento. Sua tarefa não é mostrar que o passado está ainda ali, bem vivo no presente, animando-o ainda em segredo, após ter imposto a todos os obstáculos de percursos uma forma esboçada desde o início." (FOUCAULT, 2013, p. 278-279)
A genealogia se faz como a análise da proveniência, ou seja, do antigo pertencimento a um grupo e tudo aquilo que o liga, o ordena e o assemelha. Por isso Foucault afirma que a genealogia está presente e precisa mostrar a articulação do corpo com a história, que o marca e arruína. É a partir da raça ou do tipo social que torna possível o “assemelhamento” de uns com os outros. É a partir dos erros produzidos na criação de um tipo de corpo que tenderia a ser o modelo dessa semelhança do indivíduo ao outro, e o aparecimento das falhas devido aos acidentes, desejos, acontecimentos e erros que se torna possível a análise da proveniência, a despeito da origem.
E é sobre o corpo que Foucault realiza suas primeiras análises genealógicas ao escrever Vigiar e Punir, em que utiliza a terminologia de Nietzsche para estudar os efeitos de poder na construção dos “corpos dóceis” em instituições como hospitais, quartéis, escolas e prisões.
Foucault chama de microfísica do poder um exercício que faz com que os corpos sejam produtivos e, para isso, necessitem ser docilizados. Mas essas práticas de criação de corpos dóceis não são concebidas tanto como uma propriedade de quem está em uma posição privilegiada nas sociedades, sobre os grupos localizados sob esse poder, mas é uma estratégia na qual os efeitos de dominação são atribuídos à certas disposições, manobras, táticas, técnicas e funcionamentos que desvendam relações tensas (FOUCAULT, 1987, p. 26) nas quais os corpos, mais do que serem possuídos por um soberano absoluto, são construídos e moldados, ganhando uma utilização político-econômica, já que as sociedades, a partir do século XVIII e XIX, exigem uma mão-de-obra livre e consumidora. Dessa forma,
"Analisar o investimento político do corpo e a microfísica do poder supõe então que se renuncie – no que se refere ao poder – à oposição violência-ideologia, à metáfora da propriedade, ao modelo do contrato e da conquista. No que se refere ao saber, que se renuncie à oposição do que é interessado e do que é desinteressado, ao modelo do conhecimento e ao primado do sujeito." (FOUCAULT, 1987, p 27)
Quando decide estudar os mecanismos punitivos nas instituições disciplinares, Foucault o faz dando destaque, principalmente, aos efeitos positivos (FOUCAULT, 1987, p. 23) que as ações punitivas podem induzir, fazendo dessas uma “função social complexa”, que dão ao corpo utilidade e docilidade, o constituindo como uma força de trabalho produtiva e submissa:
"Essa sujeição não é obtida só pelos instrumentos da violência ou da ideologia: pode muito bem ser direta, física, usar a força contra a força, agir sobre elementos materiais sem, no entanto, ser violenta: pode ser calculada, organizada, tecnicamente pensada, pode ser sutil, não fazer uso de armas nem do terror, e no entanto, continuar a ser de ordem física" (FOUCAULT, 1987, p.26).
É esse o momento em que Foucault sugere que pode haver um “saber” no corpo que não esteja ligado intrinsecamente ao funcionamento ou controle do mesmo, mas uma tecnologia política do corpo, a qual seria uma “Instrumentação uniforme” (FOUCAULT, 1987, p. 26). Como afirma Machado (2007, p. 167), a partir de Vigiar e Punir Foucault pretende explicar o saber e seu aparecimento “a partir de condições e possibilidades externas aos próprios saberes”, já que eles são considerados como dispositivos de natureza política.
Esses saberes, ainda de acordo com Machado, não são mais do que peças produzidas nas relações de poder; ou ainda, materialidades, práticas, acontecimentos tornados dispositivos políticos articulados às dinâmicas e estruturas econômicas.
Na genealogia, portanto, esses saberes são compreendidos como aquilo que surge após as práticas disciplinares de docilização dos indivíduos. Ao abandonar a ideia do sujeito do conhecimento que produzo saber a partir de objetos e categorias de análise, originadas desse próprio sujeito, Foucault sugere que todo o saber é poder e vice-versa. Ou seja, toda relação de poder que é exercida imediatamente produz um saber, que, por sua vez, é responsável pela construção e pelo exercício de novas relações de poder (FOUCAULT, 1987, p. 27).
As ciências humanas, como a pedagogia, a história, a psicologia e a geografia, na perspectiva genealógica, são indiscerníveis da ideologia:
"O objetivo da genealogia foi neutralizar a ideia que faz da ciência um conhecimento em que o sujeito vence as limitações de suas condições particulares de existência, instalando-se na neutralidade objetiva do universal e da ideologia de um conhecimento em que o sujeito tem sua relação com a verdade perturbada, obscurecida, velada pelas condições de existência." (MACHADO, 2007, p. 176-177)
No primeiro volume de História da Sexualidade: a vontade de saber, essa relação se torna mais nítida e clara, quando Foucault sugere que existe uma explosão discursiva sobre o sexo nos últimos três séculos, ou seja, há uma incitação institucional a se falar sobre o sexo, em suas articulações mais visíveis, e em seus mínimos detalhes; isso para que houvesse “efeitos múltiplos de deslocamento, de intensificação, de reorientação, de modificação sobre o próprio desejo” (FOUCAULT, 1988, p. 26). Quanto mais se soubesse sobre o sexo, mais informações existiriam para que a linha entre o lícito e o ilícito fosse demarcada no interior mais íntimo das famílias e das relações conjugais. E é uma demarcação que, como técnica de poder, se exerce muito mais como discursos públicos do que é ou não útil ou bom, do que uma legislação regulatória e proibitória.
Mas o século XIX, de acordo com Foucault, serviu para que houvesse uma implantação das perversões, determinadas e reguladas por lei: desde as “recomendações” para as vidas e relações conjugais (FOUCAULT, 1988, p. 38), passando pela homossexualidade, infidelidade e até a bestialidade; tudo estava passível de condenação e/ou recuperação. Quanto mais se caçavam as “sexualidades periféricas” – descrevendo-as e especificando-as – mais se definiam os indivíduos, e mais as esferas institucionais poderiam agir, fazendo com que esses indivíduos entrassem no eixo desejado. Quanto mais intensos eram esses exercícios de uniformização, a partir da captação da multiplicidade dos discursos, mais era conhecido e mais os saberes eram acumulados.
É a submissão dos corpos, e sua construção como um aparato político e econômico que, de acordo com a análise feita pela genealogia do poder, é onde está a construção do saber. Portanto, é necessário estudar o exercício do poder, as relações de força, para ser possível entender o surgimento dos saberes. O que a genealogia busca é justamente o que Foucault, no curso no Collège de France de 1976 acaba por chamar de “saberes sujeitados” (FOUCAULT, 1999, p. 13), ou seja, os processos que fizeram com que o próprio conhecimento – e aí também a ciência – fosse filtrado, hierarquizado, desqualificado e deslegitimado.
A genealogia só se torna possível, portanto, a partir daquilo que Foucault intitula como “a insurreição dos saberes sujeitados”, em uma ação em que os saberes não científicos, de senso comum, viessem à tona para que a análise do poder pudesse ser realizada. É a fala do médico ou do doente que se posiciona contra o saber da medicina; o discurso do policial ou do preso contra o sistema penitenciário; do professor e do aluno contra, ou marginalmente, ao sistema escolar.
Foucault, portanto, sugere a genealogia e a insurreição dos saberes por acreditar que as grandes teorias metanarrativas e totalitárias (FOUCAULT, 1999, p. 10), “envolventes e globais”, não são capazes de dar instrumentos que possam ser utilizados localmente, a não ser que se transformem esses saberes locais em uma representação ou teatralização, passíveis de ser completamente explicadas pela grande teoria. Além disso, Foucault não quer analisar a política e o poder a partir das formas regulamentadas e legítimas que analisam o poder em seus efeitos de conjunto, ou seja, se estudar somente as consequências ou os efeitos de um poder central regulatório, uma hora ou outra o pesquisador irá se deparar com a pergunta “de que é o poder”.
Mas, se a genealogia parte da perspectiva na qual o poder não é uma apropriação, e sim um exercício, é preciso estudá-lo a partir do fora, e como ele se exerce em suas trocas. É nessa força, que vem de fora, que se dá a construção de um saber. Como diria Deleuze (2006, p. 78-79), é o afeto criando pensamento.
Nesse sentido, é possível e necessário buscar outros espaços de produção de saber e conhecimentos, nos quais outras potenciais relações entre outras ecologias e educações estão sendo traçadas, integradas, conectadas e entrelaçadas. Quais são as outras possíveis educações ambientais que estão sendo construídas em espaços que não são hegemonicamente reconhecidos como produtores de educação ambiental, além das esferas acadêmicas, burocrático-estatais, e mesmo nos movimentos políticos e sociais que se intitulam como ecologistas e educacionais?




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