terça-feira, 13 de dezembro de 2022

OS 30 MELHORES DISCOS NACIONAIS DE 2022



Mais um ano está chegando ao fim e, como de costume, começam a pipocar as famigeradas listas com as melhores produções musicais do ano que passou. Sendo assim, a Revista Ruptura também decidiu entrar nessa brincadeira e colocar na roda sua listinha com os 30 melhores álbuns nacionais de 2022 - incluindo também alguns EPs - na lombrada opinião do editor desse falido webzineblog.

Ao desenvolver essa modesta lista de "melhores" discos do ano, tentei mesclar artistas do mainstream com produções mais undergrounds na tentativa de tentar introduzir determinadas obras, subjetividades, cenas, movimentos e territorialidades nesse amontoado de listas que se repetem aos montes com discretas alterações aqui e ali. Mas como não sou ninguém e não dito porra nenhuma, se através dessa publicação alguém que leu se dispuser a escutar uma música ou um álbum que ela habitualmente não escutaria, já tá massa pra mim. 

Obviamente não ouvi tudo que saiu esse ano, seria humanamente impossível. Portanto, essa lista é baseada no que tive acesso e consegui ouvir na correria do decorrer do ano e reflete apenas meu gosto pessoal. Os discos estão dispostos na lista de forma aleatória.  

Veja as minhas escolhas e conte pra mim qual foi o seu favorito e quem ficou de fora!

#30 LETIERES LEITE & ORKESTRA RUMPILEZZ - MOACIR DE TODOS OS SANTOS



Vamos começar a lista com um lançamento da gravadora Rocinante licenciado para a Três Selos, 'Moacir de Todos os Santos' é o novo e último álbum do grande e já falecido compositor e arranjador baiano Letieres Leite e de sua Orkestra Rumpilezz - que tem como principal característica a promoção do encontro de músicos da cena instrumental baiana com percussionistas de atabaques, os Alabés. O repertório contempla sete dos nove temas de 'Coisas' (1965), o álbum de estreia do maestro, compositor, arranjador e multi-instrumentista pernambucano Moacir Santos. Quem é vinilzêro, tá ligado. Caetano Veloso participa da faixa 'Nanã' e Gilberto Gil assina o texto da contracapa do disco. O maestro baiano queria gravar em fita, como os antigos discos de jazz eram gravados. Juntos, a gravadora Rocinante e a Orkestra Rumpilezz fizeram história: esta é a primeira gravação no Brasil realizada com três máquinas de fitas, de 24 canais, sincadas. Produzido por Letieres, Sylvio Fraga e Pepê Monnerat, o disco foi gravado por Pepê e Edu Costa no Estúdio Rocinante, mixado por Pepê (com exceção da faixa "Coisa nº 5", feita por Michael Brauer) e masterizado por Eric Boulander (The Bakery). Coisa fina!

#29 DJONGA - O DONO DO LUGAR


Lançamento d'A Quadrilha, 'O dono do lugar' é o sexto álbum do rapper mineiro Djonga, marcando seu retorno após quase dois anos sem entregar um material inédito. São aproximadamente 42 minutos distribuídos em doze músicas, abordando temas que vão desde a masculinidade do homem negro, passando por conquistas pessoais, racismo, até críticas à indústria cultural. Conceitualmente, o álbum foi inspirado pelos embates reais e imaginários do personagem literário Dom Quixote, proposta reforçada na própria imagem da capa - fotografia de Marconi HenriqueA produção do disco continua a cargo de Coyote Beatz e conta com as participações de Vulgo FK, Sarah Guedes, Oruam, Tasha e Traice. Destaco as faixas 'Tôbem', 'Dom Quixote', 'Conversa com uma menina branca', 'A cor púrpura' e 'Até sua alma'. Acende o verde e solta o play!

#28 ALAÍDE COSTA - O QUE MEUS CALOS DIZEM SOBRE MIM



Antes de discorrer brevemente sobre o álbum, acredito que seja importante contextualizar a trajetória da cantora e compositora Alaíde Costa pra que se entenda a relevância desse lançamento. Relíquia viva da música popular brasileira, Alaíde foi precursora na bossa nova, compondo ao lado de grandes nomes como Vinicius de Moraes, Johnny Alf e Antônio Carlos Jobim. Teve o início de sua carreia ainda nos anos 50, possui mais de vinte discos lançados e é considerada pioneira na luta pela emancipação da mulher negra na profissão de cantora popular no Brasil. Quer mais? Aos 86 anos de idade, a cantora carioca entrega 'O que meus calos dizem sobre mim', produzido por Marcus Preto, Pupillo (Nação Zumbi) e Emicida. Com composições do finado Erasmo Carlos, Ivan Lins, João Bosco, Joyce, Céu, Nando Reis, Fátima Guedes, Guilherme Arantes e Tim Bernardes. O disco mantém sua marca predominante no decorrer de sua carreira, em que prevalecem canções românticas e dolentes, de ritmo lento e cadenciado. Recentemente recebeu uma versão em vinil pela Três Selos. Destaco a faixa 'Pessoa-ilha'. Alaíde Costa neles!

#27 LASSO - AMUO


Sete faixas em pouco mais de dez minutos, é disso que eu gosto! Menos de um ano após sua estreia, os baianos do Lasso retornam com seu segundo EP. Embora os riffs e as composições afiadas da banda permaneçam intactas, desta vez o som é mais denso e mesquinho, como se o que foi pressentido no som sinistro do primeiro EP finalmente tivesse acontecido. De fato, à medida que o mundo deslizou para profundezas impensáveis ​​​​de escuridão e brutalidade, o som do Lasso evoluiu para corresponder, uma sensação de estabilidade conquistada a duras penas agora aumentando a angústia tão palpável em seu primeiro álbum. Tempos de desespero pedem música desesperada, o que faz de Lasso a trilha sonora perfeita para 2022.  Lançado em vinil 7" pela Sorry State Records dos EUA e Static Shock Records do Reino Unido. A 
arte da capa foi feita por Carlos Casotti. Destaco as faixas 'Fechado em copas' e 'Ausente e esquecido'.

#26 VANDAL - PUXUTRIUH


Também vindo da Bahia, Vandal lançou esse ano o
 projeto 'PUXUTRIUH' que é composto por três faixas inéditas que enaltecem o Drill, o Grime e o bom e velho Pagodão Baiano na voz explosiva do rapper soteropolitano que é o pioneiro no Brasil nos dois primeiros gêneros citados. O projeto conta com a produção de Hayllan. A mixagem e masterização ficou a cargo de Tiago Simões - Cremenow Studio - e a direção visual de PHODI$MO e Neghet. Como o próprio rapper diz no mini documentário que acompanha o EP, é música de rua, de favela, sem gentrificação. Vandal foi o rapper que mais ouvi em 2022, com toda certeza.   

#25 BRÍI - CORPOS TRANSPARENTES



Confesso que não sou um grande fã de Black Metal - salvo raras exceções - e que também não costumo acompanhar o que vem sendo feito nesse segmento. Mesmo assim, resolvi dar uma chance para o projeto Bríi do multi-instrumentista brasiliense Caio Lemos e me surpreendi positivamente. O disco independente 'Corpos Transparentes' contém uma única faixa de aproximadamente 37 minutos que transita por varias passagens, texturas e estruturas musicais diferentes no decorrer da audição. A sonoridade fúnebre espelha o conceito do disco, que gira em torno da reflexão do artista sobre a morte. Black Metal atmosférico, experimental, longo e imersivo.

#24 LUIZ GALVÃO E NATALIA FRANCISCHINI - ESCAFANDRO #3

O projeto Escafandro é uma série de duos formados pelo guitarrista Luiz Galvão e um/a convidado/a, em quatro sessões de improvisação livre. Pra esse disco, a convidada foi a Natalia Francischini, artista bastante atuante no cenário de música experimental paulista. São sete faixas ao todo recomendadas pra pessoas que não sejam caretas pra som. Lançamento do selo independente Brava, direcionado a artistas e bandas que flertam com o experimentalismo nos estilos que trabalham - seja avant garde, free jazz, drone, eletrônico, noise, grind, improvisação, no wave, punk etc. Edições limitadas de oito cópias cada sessão em fitas cassete e pôsteres em gravura em relevo e estêncil. Boa viagem.

#23 PEDRO SALVADOR - AS NOVAS AVENTURAS DO MERCADO-DEUS 



Mais novo álbum do multi-instrumentista, produtor e compositor alagoano Pedro Salvador, já conhecido pelo seu trabalho a frente da banda maceioense Necro. 'As novas aventuras do Mercado-Deus' entrega nove faixas que abordam a distopia diária de quem vive aqui na periferia do capitalismo. Todas as faixas do disco foram compostas, gravadas e produzidas pelo próprio Pedro, transitando entre o rock progressivo, o soul, o blues e mais um aglomerado de ritmos e sonoridades banhados em psicodelia de forma bastante autentica. Lançamento do selo independente Voragem, com prensagem em vinil prevista via Quilombo Discos. Grande álbum da psicodelia alagoana. Destaco as faixas 'O algoritmo de notícias não mostrará a revolução', 'Canto de guerra' e 'Morrer Feliz'. 

#22 PLANET HEMP - JARDINEIROS



Advinha, doutor, quem tá de volta na praça? Isso mesmo, o Planet Hemp retornou com o disco 'Jardineiros' vinte e dois anos depois do lançamento de seu último álbum de estúdio. O reencontro em estúdio para gravar novas músicas conta com coprodução da própria banda, Nave Beatz, Tropkillaz, Os Fita, além da finalização de Mário Caldato Jr. e traz ainda participações do membro honorário Black Alien, além de músicos como Criolo, o rapper argentino Trueno, Tantão e os Fita, e o saxofonista Thiago França. MC Carol também está presente no sample de 'Onda Forte'. As novas músicas carregam o estilo característico e marcante do Planet Hemp, eternizado no lema “rap, rock’n roll, psicodelia, hardcore e ragga”, mas atualizam a linguagem da banda com influências de ritmos como o trap, o drill, o reggae, afrobeat e o miami bass numa mistura de levadas orgânicas de guitarra, baixo e bateria com beats eletrônicos. Longe de uma daquelas reuniões caça-níquel tão comuns entre cinquentões que voltam ao estúdio, a banda volta com o peso de quem sempre ergueu sua voz contra o conservadorismo, lutando pela legalização da maconha e por outras pautas sociais. 

#21 ESCUTAS E ESTÉTICAS DO ALTO SERTÃO ALAGOANO

Um imersivo e alucinógeno processo de pesquisa musical revela, nesse disco, seus frutos. 'Escutas e estéticas do alto sertão alagoano' é uma compilação lançada pelo selo independente Quilombo Discos que reúne artistas atuantes dentro do recorte geográfico do Alto Sertão Alagoano - como sugere o título - agrupando sonoridades e estéticas que oferecem um contraponto à tendência hegemônica de escuta local. Do toante ao ruído, do ancestral ao contemporâneo. Um registro urgente de manifestações culturais marginalizadas, destacando sua relevância em seus contextos de lutas e resistências. 

credits

#20 ARAME/FACADA - PRISON DEAD SPLIT

O split 'Prison dead' reúne os capixabas do Arame e o cearenses do Facada em um disco brutal e instigante. Arame é um projeto que reúne membros de bandas como Mukeka Di Rato, Ass Flavour, Rot e Whatever Happened to Baby Jane para fazer um crust/hardcore ríspido e intenso. A banda capixaba cospe seis faixas inéditas com destaque para o vocal de Lorena (Roberta de Razão). Os grinders do Facada dispensam apresentação e retornam do limbo pandêmico com nove faixas inéditas pra esse split após quatro anos desde seu último lançamento, o ótimo 'Quebrante' (Black Hole Productions, 2018). Recomendado apenas para pessoas com ouvidos já calejados no barulho. Lançamento da Läjä Records, selo do célebre Fabio Mozine. Fica aqui um adendo sobre a capa, que é uma releitura da arte do disco de 1985 'I heard a scream' da banda estadunidense de hardcore Subculture. Peguei a referência, hein?


#19 KRISIUN - MORTEM SOLIS


Krisiun é aquele tipo de banda que você sabe exatamente o que esperar a cada álbum lançado antes mesmo de ouvir e que quase nunca decepciona. Com aproximadamente 32 anos de estrada, o trio gaúcho lançou esse ano 'Mortem Solis', seu décimo primeiro álbum e se consolida como o maior nome do death metal brasileiro na atualidade. São dez faixas - pelos menos na versão que escutei - de puro suco de Krisiun, porém, sempre agregando elementos novos a cada novo trabalho. Lançado via Century Media Records, da Sony Music, o novo álbum contou com a produção da própria banda junto a Hugo Silva e Mark Lewis - Gravado no Family Mob Studio em São Paulo. A arte da capa ficou a cargo de Marcelo Vasco, que já fez capas pra bandas como Vader, Belphegor, Absu e que, se não me engano, toca na banda The Troops Of Doom junto ao Jairo (ex-sepultura). Destaco a faixa 'Tomb of the nemeless'. Atropelo total. 

#18 PAULA REBELLATO - TAPE LOOPS VOL. II


Paula Rebellato é uma artista, compositora, cantora e produtora de São Paulo, também conhecida por seu trabalho com a banda Rakta. Esse é o segundo volume da série “Tape Loops”, trazendo em suas cinco faixas ressignificação através do tempo e do espaço, sobreposição e repetição, convidando o ouvinte a uma viagem de nuances sonoras construídas a partir do corte, manipulação e justaposição de artistas antagônicos. Neste volume final, Paula usa um pedal Boss RC-202 para reorganizar recortes e loops, criando composições a partir de fragmentos de fitas cassete de artistas como Dead Can Dance, Felinto, Sleep Chamber, Deux Filles, Alvenaria, Autogenesis, Africa - Witchcraft & Ritual Music and Todesfuge. O álbum também traz um remix do talentoso artista multidisciplinar Kakubo, explorando frações de diferentes partes de suas composições por meio de edição ao vivo em máquinas de música. Capa por Douglas leal (Deafkids).

#17 MC POZE DO RODO - O SÁBIO


Fenômeno absoluto, o MC carioca Poze do Rodo lançou esse ano seu primeiro e histórico álbum de estúdio, intitulado 'O Sábio'. Logo que saiu, o disco ficou no top 10 mundial do $potify ao lado de nomes como Rihanna e Black Eyed Peas. Cria da favela do Rodo, que fica em Santa Cruz, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, MC Poze tem apenas 23 anos e já emplacou diversos hits antes deste álbum. Estourou na internet em outubro de 2018 com a faixa 'Homenagem Para os Irmãos do Rodo', música que exalta a memória dos que “morreu metendo bala pelo Comando Vermelho”. Em 2021, dois dos dez clipes mais vistos no YouTube no Brasil foram dele: 'Vida Louca' e 'A Cara do Crime (Nós Incomoda)', sendo o único a ter duas músicas no ranking. Já tendo sido preso por apologia ao crime e associação ao tráfico, o MC faz em seu disco de estreia uma forte crítica social em relação à vivência nas favelas e periferias, sobretudo, a tensão entre a polícia, o tráfico e a perseverança em tentar ter uma vida com melhores condições. O álbum conta com nove faixas com produção da Mainstreet, gravadora carioca que aposta no trap nacional e com as participações de MC Cabelin, Bielzin, Major RD, Borges, Raffé, Orochi, Oruam, Vulgo FK e uma inusitada parceria com o popular cantor pernambucano de piseiro, João Gomes. O trampo audiovisual que acompanha o disco é incrível, apenas escute e veja.   

#16 VHOOR - BAILE & BASS


O produtor de 24 anos, VHOOR, é um dos talentos mais brilhantes do Brasil a subir no cenário internacional. Vindo da cidade de Belo Horizonte, o VHOOR conseguiu construir uma base de fãs leais no Brasil e no exterior, misturando música eletrônica global com ritmos brasileiros e afro-latinos. No Brasil, VHOOR é um dos produtores de referência da atualidade, trabalhando com alguns dos mais brilhantes talentos do Brasil no reino do Hip Hop, Música Eletrônica e Baile Funk. Seu último e sensacional álbum 'BAILE' com o rapper brasileiro FBC, ajudou a modernizar a produção de Miami Bass e Freestyle e foi amplamente apresentado em várias listas de melhores álbuns de 2021. O álbum foi aplaudido pela mídia brasileira e o single 'Se Tá Solteira' viralizou no TikTok e no Instagram Reels, resultando em mais de 26 milhões de reproduções no $potify, além de figurar em várias paradas nacionais e globais no aplicativo. VHOOR continua a ultrapassar os limites da produção de música eletrônica, importando gêneros internacionais e incorporando-os ao Baile Funk brasileiro e outros ritmos brasileiros menos conhecidos. Seus álbuns instrumentais solo (Ritmo, Baile & Vibes, Baile & Sauce, etc), e seu trabalho como parte do coletivo Weird Baile (ao lado dos produtores Mu540 e JLZ), têm expandido a conversa sobre o potencial da música eletrônica brasileira. 'Baile & Bass' é um álbum com a intenção de fundir o Miami Bass com técnicas de produção contemporâneas, usando texturas densas, harmonias dissonantes e graves em movimento. O álbum apresenta onze faixas e ajuda a restabelecer as raízes do Miami Bass como base para o moderno Baile Funk brasileiro.   

#15 BK - ICARUS


Quarto e mais recente álbum do rapper carioca BK, 'Icarus' é um lançamento do selo fonográfico Gigantes, aberto pelo próprio artista em maio de 2021, ano que BK lançou o EP Cidade do pecado e aborda em uma perspectiva contemporânea e urbana, um paralelo entre o mito de Ícaro e a sociedade atual. Com produção e também direção musical de JXNV$ - codinome artístico do DJ e produtor Jonas Profeta, colaborador recorrente da discografia de BK - e de nomes como Sango e Nansy Silvvz o disco apresenta treze faixas e trás as participações de Major RD, L7NNON, Julia Mestre, Bebé, Luccas Carlos e Marina Sena. 

#14 SATANIQUE SAMBA TRIO - CURSED BRAZILIAN BEATS VOL. 2



Com dezessete anos de estrada nas costas e uma já extensa discografia, o grupo de música instrumental brasiliense Satanique Samba Trio lança aos 45 do segundo tempo de 2022 seu mais novo trampo, intitulado 'Cursed Brazilian Beats Vol. 2'. Embora eu já conhecesse, a banda me chamou a atenção ainda em 2020 com um lançamento inusitado e pioneiro. O "disco líquido", Instant Karma, que funcionava da seguinte forma: Era publicada uma música por dia no stories do Instagram da banda. Foram 28 músicas de 15 segundos que só existiram por 24 horas. Quem ouviu, ouviu. Cada música representando um ritmo relevante do Brasil, da ciranda ao maxixe, da bossa-nova ao partido alto. Nas quatro faixas de seu novo disco o grupo continua apostando na sua linguagem própria de desconstrução e recombinação de ritmos brasileiros tocados de uma forma única. Lançamento em vinil via Perdido Discos. Uma das bandas favoritas aqui da casa. Destaco a faixa 'Abanthesma'. 

#13 ESCARNIUM - DYSTHYMIA


Novamente a Bahia marcando presença aqui na lista, dessa vez, com o novo álbum da banda de death metal Escarnium. 'Dysthymia' é o terceiro disco da banda, apresenta seis faixas que abordam temas que vão de doenças mentais até outros horrores do mundo moderno, sendo um cover da banda sueca Grave. A produção do álbum ficou a cargo da própria banda e do produtor Caleb Bingham, que também ficou responsável pela edição, mixagem e masterização. Lançamento em vinil e CD via Redefining Darkness Records. Já tive a oportunidade de ver o grupo ao vivo em um dos festivais organizados pelo amigo Wilker na cidade de Paulo Afonso, sertão baiano. Banda animal, confira. Destaco a faixa 'Deluged in miasma'. 

#12 BUDANG - ASTROLOGIA, DESTINO E SALMOS


'Astrologia, Destino & Salmos' é o terceiro EP da banda de hardcore punk Budang, de Florianópolis. Trazendo uma sonoridade intensa, agressiva e autêntica, as seis faixas traduzem muito da revolta contra agravantes da crise epidemiológica e socioeconômica no Brasil. A direita gratiluz e sua irresponsabilidade social negacionista pautam alguns dos temas abordados, além do consumismo exacerbado, a utilização da tecnologia como ferramenta para propagação do fascismo, a aceitação da insignificância da própria existência e o abuso de drogas. Apesar disso, o humor já característico do grupo se mantém presente do início ao fim, somado ao descompromisso com a sonoridade padrão de roqueiro tolo. Lançamento da Deckdisc. Destaco as faixas 'Morar no Bar' e o batidão 'Punts Éun' que fecha o EP dos manos.

#11 BUFO BOREALIS - DIPTERA


Após lançar seu bem recebido disco de estreia 'Pupilas Horizontais' de 2020 o Bufo Borealis não parou mais de produzir, tocar e compor as músicas que agora fazem parte desse segundo álbum, chamado 'Diptera'. A formação em sexteto jazz-funk contou com Juninho Sangiorgio (baixo) - que também toca no Ratos de Porão - Rodrigo Saldanha (bateria), Anderson Quevedo (sax), Paulo Kishimoto (teclados e percussão), Tadeu Dias (guitarra) e Tiago Frúgoli (piano elétrico). O estadunidense Adam Scone toca órgão Hammond B3 na faixa 'O Alfaiate', e o guitarrista Felipe Pagani, também responsável por toda a arte do disco, toca guitarra na faixa 'Brejo'. O disco foi mixado pelo Bruno Buarque e masterizado pelo David Menezes. As fotos da contracapa são do Rogério Alonso e a assistência foi feita pelo Gustavo Moita. Lançamento em vinil via Zenyatta Records e em CD pela Montag Records e Zenyatta Records. Destaco as faixas 'Grão', 'Hermeto' e 'Argila'. 

#10 JUÇARA MARÇAL, GUI AMABIS E RODRIGO CAMPOS - SAMBAS DO ABSURDO VOL. 2 


Sambas do Absurdo Vol. 2 é o segundo disco do trio formado por Juçara Marçal, Gui Amabis e Rodrigo Campos. 
Se no primeiro, o livro de Camus, O mito de Sisífo, norteia a criação com a bifurcação dada (suicídio ou vida absurda) no encontro com Absurdo (a falta de sentido da vida), nesse segundo, se expande, de um jeito mais direto, no diálogo com a vida cotidiana. E quando notamos essa premissa na estética sonora, verificamos um álbum mais “pé no chão” que o primeiro. Antes o samba vinha desintegrado, agora se insinua o tempo todo, numa dança com o Absurdo, como se, com o tempo, a falta de sentido ficasse menos aterrorizante e mais integrada ao todo que rege as forças da natureza. Produção de Gui Amabis. Lançamento em vinil via Três Selos. 

#9 BALA DESEJO - SIM SIM SIM


Álbum de estreia do quarteto carioca composto por Dora Morelenbaum, Julia Mestre, Lucas Nunes e Zé Ibarra unidos em uma imersão coletiva para criar o reluzente álbum 'SIM SIM SIM'. Produzido pelo quarteto, o disco traz ainda a coprodução de Ana Frango Elétrico. Bala Desejo toca frevo, samba, salsa, rock, reggae, disco music e reinventa a tradição da MPB com arranjos e harmonias criativas.  São dez faixas com as participações especiais de nomes como Tim Bernardes e Jaques Morelenbaum. Completando o elenco cênico, há presenças como as de Teresa Cristina, Rubel, Maria Gadú, Duda Beat, Antonio Neves e Sophia Chablau. Em contraponto ao isolamento imposto pela pandemia, o disco imagina uma abertura ao mundo com “caixas, bumbos e trompetes e as chuvas de confetes”, em que todos cantamos juntos “quero porque quero te dar amor”, um clima de recarnavalização da vida. Encarnando a simbiose entre música, poesia e teatro, o grupo propõe ao público, nas performáticas faixas de 'SIM SIM SIM', uma espécie de celebração da existência. Lançamento em vinil via NOIZE Record Club.

#8 JANDERSON FUNDAÇÃO - SUBSOLO


O rap nacional underground resiste. 'Subsolo' é o mais novo trampo do rapper paulista Janderson Fundação. Eu o conheci por indicação do meu amigo Igorzim, através de um vídeo de sua participação na final estadual de São Paulo do duelo nacional de Mcs de 2022. São cinco faixas pesadíssimas que mesclam o trap, o drill e o grime exaltando a cultura hip hop e trazendo duras críticas a violência do estado brasileiro. O EP ainda conta com as participações de Lucca Lamafia e Vini PDR. Destaco a faixa 'Demorou, pode vim'. Brabo demais. 

#7 RASTILHO - ERA DOS EXTREMOS



Ativo desde 2015, o grupo paulista Rastilho formado por membros de bandas como Abuso Sonoro, Bandanos, Plague Rages entre outras bandas atuantes no underground, lança seu segundo álbum. O disco 'Era dos Extremos' - mesmo nome de um livro de Eric Hobsbawm - entrega onze faixas crustpunk com influencia de metal, abordando questões sociais de forma crítica. Mixagem e masterização de Igor Porto. A fotografia impactante da capa é de Lethicia Galo. Lançamento em CD via Matéria Negra Discos, Weirdo Discos, Ritmo & Poesia, Chuta Cocô, Tiranossauro Records, Poeira Maldita, Entorte Discos e Vertigem Discos. Destaco as faixas 'Movendo cifrões' e '80 tiros'.  

#6 MUKEKA DI RATO - BOIADA SUÍCIDA 


Sete anos após o lançamento do seu último disco, o Mukeka Di Rato retorna com um novo álbum intitulado 'Boiada Suícida'. A banda agora conta com Fepaschoal no vocal, antigo colaborador e nome já conhecido no hardcore underground nacional. O novo disco é o oitavo da carreira do grupo capixaba e marca seu retorno à Deckdisc. A produção ficou por conta de Rafael Ramos, que também foi responsável pelo disco Carne (2007). 'Boiada Suicida' trás em suas dezesseis faixas inéditas - sendo uma faixa um cover de Chico César - um retrato do Brasil atual. Destaque para a capa bastante sugestiva, remetendo à execução de fascistas na Itália pós-segunda guerra mundial. 

#5 CÄBRÄNEGRÄ/JÄRNBÖRD - SPLIT


Duas bandas animais estão reunidas nesse barulhento split, Cäbränegrä do Brasil e Järnbörd da Suécia. Na ativa desde 2019, os barriga-verde do Cäbränegrä mandam nove faixas que ficam entre o grindcore e o power violence. Já os suecos do Järnbörd entregam cinco faixas do seu lado. Grindcore direto sem passagens pula-pula, o que me agrada muito. Ambas as gravações foram masterizadas por Mattias Persson, deixando o som do split bem nivelado. A capa foi desenvolvida pelo artista FIEDLER. Lançamento previsto em CD via Fuckitall Music, Brado Records, Two Beers or Not Two Beers, Tu.Pank Records, Undergrind Recs e Esagoya Records do Japão. Destaco as faixas 'Sucatear', 'Mãos sujas', 'Allt är inget' eAlla medelm​å​ttiga konstn​ä​rer d​ö​r utmattade'. 

#4 MALENA STEFANO - IMPOSSÍVEL


Malena Stefano atualmente reside em Curitiba. Em 2015 mudou-se para Brasília e participou da cena de música experimental da cidade, se apresentando em galerias de arte e pequenos eventos. Em 2019 começou a escrever o que se tornaria seu primeiro álbum: 'Impossível'. São 30 minutos divididos em nove faixas de drama feminino contando a história de uma garota presa em uma masmorra por um Deus batizado de “Impossível”. Seu crime foi desafiá-lo para ter controle do próprio destino e sua sentença foi produzir um álbum pop. Dentro da masmorra, essa garota reflete sobre o amor romântico, vulnerabilidade, solidão e futuro. Por essa razão, Malena apelidou o gênero do álbum de “dungeon pop”. Malena Stefano é uma mulher trans e suas maiores influências são Cocteau Twins, Dead Can Dance, Mylène Farmer, Kate Bush, Franco Battiato e Meredith Monk. Lançamento Meia-Vida. Destaco as faixas 'Moonbath' e 'Os vampiros(só morrem de tristeza)'.

#3 RATOS DE PORÃO - NECROPOLÍTICA


Durante todos os 40 anos de carreira, o RDP foi uma banda que soube ler o Brasil como poucas. Desde o seu primeiro disco 'Crucificados pelo Sistema' (1984), passando pelo clássico 'Brasil' (1989) e pelo mais recente 'Século Sinistro' (2014). Após oito anos de hiato, banda volta com o décimo terceiro álbum de estúdio, 'Necropolítica'. O novo trampo é uma extensão natural dos acontecimentos abordados em seu último disco de estúdio, são dez faixas que abordam a ascensão da extrema-direita no país, questões sociais, neonazismo, religião e necropolítica obviamente. Musicalmente, a banda continua apostando no seu já característico crossover. Gravado no Family Mob Studios por Davi Menezes. Mixado e masterizado no Estúdio El Rocha por Fernando Sanches, com produção da própria banda. A bonita arte e layout ficaram a cargo de Raphael Gabrio.

#2 FERNANDO CATATAU - S/T


Primeiro álbum em carreira solo do músico, cantor e compositor cearense Fernando Catatau, conhecido pelo seu trabalho a frente da banda Cidadão Instigado e por sua larga colaboração com artistas como DJ Dolores, Karina Buhr, Test, Otto, Kiko Dinucci, Thiago França, Juçara Marçal entre outros nomes da música brasileira. As doze faixas do disco são contemplativas, noturnas, embaladas por uma banda que tem o também Cidadão Instigado Dustán Gallas, nos sintetizadores, baixo e outros instrumentos e Samuel Fraga, na bateria. Além deste núcleo duro, orbitam alguns convidados como a cantora Yma, a vocalista trans Melindra Lindra, Giovani Cidreira e Juliana R. Complexo, instigante e noturno, “Fernando Catatau”, o disco, é uma obra digna de seu criador. Exige do ouvinte a atenção necessária para proporcionar a este uma viagem por becos escuros da alma torturada pelo amor, pelo tempo e pelas adaptações que a vida exige de todos. O álbum é verdadeiro e pungente, uma bela – ainda que tardia – estreia solo. Produção do próprio Fernando Catatau e de Dustan gallas, mixagem de Funai Costa e masterização de Chris Gehringer no Sterling Sound studios (NY). A capa é assinada por Isadora Stevani e Juno B. Distribuição por Tratore.

#1 ANTI-LOCK (GALF AC, NAIROBI, MISTAH JORDANE TRAUMATOPIA) - MMXXII


Anti-Lock é o produto da parceria entre alguns dos artistas mais interessantes e inovadores do rap nacional em muito tempo. A parceria homônima é formada pelo soteropolitano Galf AC, pelo paulista do Vale do Paraíba Mistah Jordan (que é metade do Duo Braselda, ao lado do talentoso produtor Barba Negra) e pelos curitibanos Nairobi e Traumatopia, dois terços do projeto Diatribe, Vol. 1 — e respectivamente um dos MCs e o DJ/produtor da banca. Todos eles representam, cada um à sua maneira, um pouquinho do que de melhor vem sendo produzido na cena nacional do gênero . São nove faixas brisadas com participações de Mattenie, Jamés Ventura, Thestrow e Relvi. Arte da capa por Matennie.

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