
Pra começar me conte um breve histórico da banda e me diga se existe uma relação direta entre o nome da banda e Platão?
Augusto: Hey, Michel! E Pra começar daqui, agradeço demais a chance do bate-papo, aqui no Ruído Tóxico, amigo! Puxa, gratificante demais ter esse tipo de interesse no que a gente d'O Mito tem tentado desenvolver! Sobre a banda, não tem muito o que se diga que inúmeras outras bandas também não tenham passado e dito... Nada de novo, sabe? Costumo mencionar que dos nossos momentos mais importantes estão o primeiro evento, que foi dentro da Ocupação Mauá dos Trabalhadores Sem Teto, aqui no centro de SP - ao lado da estação da Luz - e acredite: Isso foi muito fundamental pras nossas direções nos temas e coisas assim... é até nesse sentido que esse nome, O Mito da Caverna, trabalha. O lance do conhecimento de si e de seu derredor, quem você é, onde você, quando você é e com quem você é... Nada que seja diretamente influenciado por alguma escola platônica (Embora eu ache difícil alguém poder dizer que NÃO TEM NENHUMA influência ao menos indireta dele, saca...?)
Dentre as definições musicais (?) que ouvi falar sobre O Mito Da Caverna, uma me chamou bastante atenção: "grindcore morto", essa definição diz respeito somente da parte sonora/musical (?) da banda ou existe alguma alusão a cena grindcore atual propriamente dita?
Dentre as definições musicais (?) que ouvi falar sobre O Mito Da Caverna, uma me chamou bastante atenção: "grindcore morto", essa definição diz respeito somente da parte sonora/musical (?) da banda ou existe alguma alusão a cena grindcore atual propriamente dita?
Igor: Penso que a ideia do “Grindcore Morto” surgiu a partir do momento em que percebemos que não tínhamos grande identificação, se não sonora, com o Doom, por exemplo. Tentamos estabelecer uma aproximação maior com assuntos de cunho social, como a questão da reforma agrária, da identidade negra e indígena. Quanto a questão estética, nos distanciamos do doom pelo fato de as preocupações dele estarem mais ligadas à um clima europeu, uma paisagem gélida, cemitérios e tudo mais, e a questão principal é o fato de o sofrimento estar centrado sempre em um único indivíduo, de forma muito introspectiva, enquanto o grindcore trataria de “desmembrar” os problemas que atingem a sociedade como um todo.Finalizando, penso que o que nos atrai no grindcore é toda a transformação ideal do desespero, caos e do sofrimento para o formato da música e tudo o que se refere a ele.
Augusto: Cara... saca que, embora a velocidade do nosso som não seja aquela característica do Grindcore, a gente se considera, sim, uma banda Grindcore! A parte estética, a parte escrita, as questões abordadas e a forma que são abordadas... então essa 'brincadeira' (?!) surge em cima disso, mas tem muito que ver também com esse esvaziamento de conceitos que é meio que próprio desses rincões em que a gente vive, entende? (certo, muita gente ainda mantém críticas severas, importantíssimo, mas o que chamo aqui de 'esvaziamento' é também aquele lance de repetir incessantemente discursos de vinte ou trinta anos atrás... se os problemas permanecem, o cenário não permanece o mesmo, por que os atores dessa peça são outros, são muitos mais!) - Não é, por favor, não vamos pensar isso, uma tentativa de criar um novo estilo de música, não é nada disso - Seria, no mínimo, uma coisa besta! ha ha ha ha
Augusto: Cara... saca que, embora a velocidade do nosso som não seja aquela característica do Grindcore, a gente se considera, sim, uma banda Grindcore! A parte estética, a parte escrita, as questões abordadas e a forma que são abordadas... então essa 'brincadeira' (?!) surge em cima disso, mas tem muito que ver também com esse esvaziamento de conceitos que é meio que próprio desses rincões em que a gente vive, entende? (certo, muita gente ainda mantém críticas severas, importantíssimo, mas o que chamo aqui de 'esvaziamento' é também aquele lance de repetir incessantemente discursos de vinte ou trinta anos atrás... se os problemas permanecem, o cenário não permanece o mesmo, por que os atores dessa peça são outros, são muitos mais!) - Não é, por favor, não vamos pensar isso, uma tentativa de criar um novo estilo de música, não é nada disso - Seria, no mínimo, uma coisa besta! ha ha ha ha

Quais influências da banda (musicais, literárias, artísticas, o que for...)?
Augusto: Ah! pegou pesado! (rs) Sobretudo musicalmente, por que eu mesmo estou nesse bate-papo escutando Jets to Brazil em dias que tenho escutado de After the Bombs pra lá nos porões crust! Paulo Silas e Igor devem estar agora, escutando algum tipo de música étnica que sempre me faz perguntar "Onde e como encontraram isso?". Nicolau, fatalmente, escutando Swans E o Douglas bem dentro da coisa toda mais Punk e Rock, mesmo que bem por dentro da coisa toda mais death e grind... vê? é complicado,Se bobear, é mais fácil citar as literárias mesmo, pois todos curtem bastante Kafka, Orwell; Nos alinhamos bem com a visão libertária de mundo e ansiamos demais por ver o circo Neo-Liberal em chamas, sabe? Acho que trazemos todos algum senso materialista de espiritualidade, entende? Então, figuras feito Jack London acabam mexendo bem com (alguns d) a gente e se puder te recomendar algo, te recomendaria as publicações da Crimethinc. - Li recentemente ao "Days of War, Nighs of Love"... Me impressionei muito com todo aquele amor pela vida, carregado de sugestões e confrontações e incitação ao roubo de grandes corporações e ao plágio; e 'melhor para o casal fazer amor no cemitério sob a luz do luar do que em algum shopping center comendo fast-food... coisas assim, saca? (claro que a obra vai bem além disso!)
Igor: Desculpem-me por pisar nos mesmos calos, mas acho que faz-se necessário pra dar algumas sugestões, também hehehe! Musicalmente falando, acho que minhas influências têm sido, como o Guto disse, a World Music (em que posso recomendar três grupos bem distintos: Dead Can Dance (principalmente o último álbum, de 1996, Spiritchaser), o Yat-Kha, que mescla muitos elementos ocidentais com orientais, e o grupo de música tradicional mongol Khusugtun.), e também o Earth, com seus dois últimos trampos maravilhosos, e o Monarch!, banda francesa de Drone/Doom com uma atmosfera extremamente enclausurada e opressora, da qual recomendo o álbum Mer Morte. Quanto à literatura, já tem muito tempo, só me vejo na literatura de Kafka. Acho uma pena não ter acesso à toda sua obra. A forma com que ele transfere sensações gerais da época para situações extremamente pessoais e opressoras é brutal! Falando um pouco sobre cinema, creio que o cinema norueguês e do leste europeu de modo geral trazem sempre concepções muito interessantes sobre a construção do indivíduo. Posso recomendar os filmes “A Arte do Pensamento Negativo”, “Os Infelizes” e “Taxidermia”. “Dançando no Escuro”, do Lars Von Trier traz uma inspiração BEM melancólica para mim...
O que O Mito da Caverna aborda em suas letras e qual seu direcionamento político?
Igor: Desculpem-me por pisar nos mesmos calos, mas acho que faz-se necessário pra dar algumas sugestões, também hehehe! Musicalmente falando, acho que minhas influências têm sido, como o Guto disse, a World Music (em que posso recomendar três grupos bem distintos: Dead Can Dance (principalmente o último álbum, de 1996, Spiritchaser), o Yat-Kha, que mescla muitos elementos ocidentais com orientais, e o grupo de música tradicional mongol Khusugtun.), e também o Earth, com seus dois últimos trampos maravilhosos, e o Monarch!, banda francesa de Drone/Doom com uma atmosfera extremamente enclausurada e opressora, da qual recomendo o álbum Mer Morte. Quanto à literatura, já tem muito tempo, só me vejo na literatura de Kafka. Acho uma pena não ter acesso à toda sua obra. A forma com que ele transfere sensações gerais da época para situações extremamente pessoais e opressoras é brutal! Falando um pouco sobre cinema, creio que o cinema norueguês e do leste europeu de modo geral trazem sempre concepções muito interessantes sobre a construção do indivíduo. Posso recomendar os filmes “A Arte do Pensamento Negativo”, “Os Infelizes” e “Taxidermia”. “Dançando no Escuro”, do Lars Von Trier traz uma inspiração BEM melancólica para mim...
O que O Mito da Caverna aborda em suas letras e qual seu direcionamento político?
Augusto: Saca, tem um lance que rola muito nos círculos punx brasileiros, que é criticar a burguesia daqui, mas agir igualzinho a ela. O que isso quer dizer? É sobre o lance de que a burguesia brasileira consegue ser pior do que as burguesias-padrão mundo afora e nunca cria nada próprio dela, vive de tentar reproduzir o sonho americano, o status europeu... Um lance idêntico rola nos circuitos punx, cara... Uma reprodução enorme do contexto que acontece em solo canadense, europeu, estadunidense... sobretudo da estética, mas não vou ser hipócrita (alguém não é?) e culpar os circuitos punx em questão (No meio metal, a coisa fica ainda mais tensa...). Isso é coisa de país subdesenvolvido, de auto-educação ausente, mentes colonizadas e nós, d'O Mito, obviamente não estamos fora disso, mas não tem como não reparar nessas brigas bobas "Anarquismo versus Comunismo", nessa reprodução de discursos que acabam não dizendo muito pra gente aqui (Acho completamente desconexo brasileiros com letras sobre como as touradas são cruéis... Saca? Mesmo que isso seja de fato horrível, não temos problemas mais urgentes e nossos por aqui? Ou até ainda nessa questão, bandas que abordam a questão do sofrimento animal na vivissecção mas comem carne! Criticam a exploração trabalhista mas ostentam peças de ouro em suas indumentárias, se dizem contra o preconceito racial, mas se recusam a uma auto-crítica e adaptação à nossa realidade quanto ao ganguerismo, machismo, homofobia... Nossa inclinação política se dá nisso, que a liberdade, a emancipação e sustento do ser humano (ou não) deve ser levado até as últimas consequências, nem que em sua elaboração teórica - que é uma forma de se interpretar a visão Libertária de Mundo - porém, a mera cópia, sem nenhum experimentalismo não vai adiantar muito... Nossas letras trabalham então, dentro desse espectro, desse cenário que já sabemos ser caótico, mas que não convém meramente 'parar e admirar o caos'. Sabe que, inclusive, achamos que parte do que já foi escrito pela gente, poderia ser bem mais ácido, bem mais caustico do que o que foi feito? Conforme formos evoluindo (se nos for dada essa benção) isso certamente será revisado (é um mecanismo forte, cara, precisa ser bem aproveitado...)

Nos fale como foi se apresentar na ocupação Mauá, e o que vocês absorveram dessa experiência?
Augusto: Hmmm... Cara, basicamente norteou tudo o que foi feito depois! Lembro bem que na Organização estavam os maravilhosos Daniel e Lázaro! O Lugar por si só, se impõe, impõe respeito! E faz isso com bases extremamente humildes, francas, receptivas. Tão bom estar entre gente de apelo popular e guerreiro ao mesmo tempo... Peles pardas,espíritos gigantes, mãos calejadas e rugas que custaram toda uma vida pra serem cavadas... ah, eu poderia versar horas sobre isso! Acho interessante mencionar que em meio às bandas severamente punx do dia, tivemos uma apresentação do conjunto local de forró e sobre como isso foi bem recebido, sobre como aquela gente toda cheia de arrebites e moicanos e patches com dizeres politizados dançaram e se divertiram (ao seu modo, mas dançaram e se divertiram) ao som do Forró do Pica-Pau! (e acho que nunca mais eu consigo a chance mágica de fazer vocal num microfone sem fio! ha ha ha ha). Me recordo que vocal gutural foi um lance muito novo pros moradores! Eles nunca tinham presenciado isso, então assim que deixei o microfone no palco ao fim da apresentação, os garotos da Ocupação voaram nele, cara! Pegaram e ficaram tentando imitar os berros, muito engraçado aquilo! Depois disso, acabei mantendo um laço de amizade com gente dali e voltei, claro, pra prestigiar outros eventos organizados lá dentro
A banda está pra lançar seu primeiro trabalho "condenados da terra" (me corrija se eu estiver errado), fale um pouco sobre esse material.
Augusto: Ah, sim! Dores de parto! Estamos na reta finalíssima, Michel! Finalíssima! Gravação completa, encerrando mixagem, encarte e demais partes gráficas já elaborados! Vai ser, em nome do bom senso coletivo, uma faixa única (risos) e embora a espinha dorsal da coisa seja tematizada no livro de Fanon, há de se encontrar ali Saramago, Alan Moore, Belchior, Chico Buarque... Claro, tudo condensado em nossas ideias, nossas visões. Cara, ai da gente nessa sem a presença dos caras da Karasu e da Equivokke - Rafael e Filipe, que tiveram paciência mega infinita tanto com a nossa 'pontualidade' quanto com as esquisitices que vamos apresentando quase que incessantemente...
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| Ocupação Mauá |
Muito obrigado mesmo pela entrevista cedida!! e o espaço é de vocês!
Augusto: Bom... Acho que acabo retomando o termo "esvaziamento" lá de cima, sabe? Na real, retomo mais, por que fico me indagando o quanto estamos dentro disso, entende...? Somos frutos da mesma sociedade que produziu esse esvaziamento, estamos nesse círculo, nesse vórtice que parece somente aumentar a cada vez que tratamos a seu respeito. Me refiro a esses discursos "meta-linguísticos" de cena - Quando a cena só sabe falar da Cena, como se não bastasse o fato de apenas falar PARA ela mesma e DELA mesma... Não vejo (e acho que não vemos) tanto sentido em se voltar atenções pra esse umbigo underground (por mais 'hipnótico' que seja), mais do que a atenção a se dar a causas populares mais amplas, entende? Nada pra cena e cenas. Tudo o que há para todos os que aí estão... E, cara, Brigadão por esse momento! Pôxa, você é lindo demais, valeu mesmo, beijo enorme. E pra quem se deu o trabalho e pra gente a honra de ler isso daqui, deixo o abraço mais carinhoso que eu posso dar, é o que eu tenho de mais valioso...
Igor: Acho que retomo um pouco do que o Guto falou, acrescentando que não devemos perder tempo em fortalecer com tanto ímpeto um movimento que nada tem a acrescentar a nossas vidas, que nada traz de resposta à agonia de nossos semelhantes, dos nossos não semelhantes e dos não amparados. Se chegamos até aqui, criamos uma “cena” com um invólucro tão libertador, porém com um cerne tão reacionário e machista (só para ressaltar suas arestas soltas mais visíveis) e não estamos fazendo nada em relação à esse conforto todo diante dessa situação bizarra, somos nada mais do que parte do sistema que com tanta raiva apregoamos contra. Queremos estabelecer vínculos construtivos com quem pudermos, estabelecer contato com pessoas de diferentes nichos para que possamos acrescentar tanto para as nossas expressões artísticas como as de outros grupos. Evidentemente, presos a essa concepção retrógrada de cena, estamos apenas alimentando um fetiche e impossibilitando qualquer evolução que poderíamos conceber.
Penso que falei demais, mas, por ora, é isso!
Agradecemos imensamente o espaço e esperamos um dia podermos nos reunir para nos divertirmos e trocarmos muitas experiências hehehe. Abração!
Igor: Acho que retomo um pouco do que o Guto falou, acrescentando que não devemos perder tempo em fortalecer com tanto ímpeto um movimento que nada tem a acrescentar a nossas vidas, que nada traz de resposta à agonia de nossos semelhantes, dos nossos não semelhantes e dos não amparados. Se chegamos até aqui, criamos uma “cena” com um invólucro tão libertador, porém com um cerne tão reacionário e machista (só para ressaltar suas arestas soltas mais visíveis) e não estamos fazendo nada em relação à esse conforto todo diante dessa situação bizarra, somos nada mais do que parte do sistema que com tanta raiva apregoamos contra. Queremos estabelecer vínculos construtivos com quem pudermos, estabelecer contato com pessoas de diferentes nichos para que possamos acrescentar tanto para as nossas expressões artísticas como as de outros grupos. Evidentemente, presos a essa concepção retrógrada de cena, estamos apenas alimentando um fetiche e impossibilitando qualquer evolução que poderíamos conceber.
Penso que falei demais, mas, por ora, é isso!
Agradecemos imensamente o espaço e esperamos um dia podermos nos reunir para nos divertirmos e trocarmos muitas experiências hehehe. Abração!


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